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Estado de Sítio

A chama da esperança

Por Ana Raimundo Santos

A polícia saiu à rua, o povo aplaudiu e muitas vozes se levantaram contra e a favor.

Em relação a este assunto, tenho sentimentos contraditórios, que me abstenho de partilhar, por respeito a quem me lê. Mas uma coisa é certa: quando um país corta em força na segurança, reduzindo salários e colocando em situação de, muitas vezes, quase miséria, as suas forças e serviços de segurança e, ao mesmo tempo, na justiça, fecha tribunais, e restrutura só porque sim, está claramente a pedir que quem é afectado saia à rua e se manifeste.

O direito à manifestação existe e encontra-se constitucionalmente previsto no art. 45.° da Constituição da República Portuguesa. Este direito existe e é legítimo que quem assim o entenda dele faça uso, no estrito cumprimento da lei.

Ora, aqui é que a porca torce o rabo!

Quem chega ao ponto de sentir necessidade de sair à rua e fazer ouvir a sua voz é porque já ultrapassou, há muito, os limites da razoabilidade e do bom senso. Quando estes limites se ultrapassam, o que vem a lume é o pior é, concomitantemente, mais humano que existe em casa um de nós – o instinto de sobrevivência.

Hoje, as minhas palavras não são de crítica, sarcasmo ou ironia, são palavras de pesar.

— Pesar? — questionar-se-á o leitor.

Sim, pesar. Pesar por um futuro que já não existe, pesar por um País que colocou a corda no pescoço com esperança de não cair do cadafalso onde se auto-colocou, pesar por uma geração, a nossa, que não tem qualquer responsabilidade na crise que está a pagar não só com dinheiro, mas também com a própria vida, com os próprios sonhos e com a percepção de que tudo o que nos ensinaram a ser e pelo que nos ensinaram a lutar pode, afinal, não valer a pena.

A polícia saiu à rua e o povo aplaudiu e vai continuar a aplaudir até ao dia em que a chama da esperança se apague de vez.

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