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Transporte Humano

Quando for grande, quero ser técnico de planeamento de transporte colectivo

Por Jarrett Walker [a]

Todas as semanas, ou perto disso, recebo correspondência a perguntar-me como entrar no sector do planeamento do transporte colectivo. Eu conheço quatro caminhos bastante comuns, embora, pessoalmente, não tenha percorrido nenhum deles:

1. Torne-se motorista de autocarro ou de comboio, e suba na hierarquia da gestão de operações. Tenha boas ideias sobre o desenho da rede e expresse-as com entusiasmo, mas com muita, muita, paciência. Se o leitor for inteligente, prático, simpático e paciente, este pode ser o melhor caminho, especialmente se não tiver qualificações académicas ou inclinação para obtê-las.

2. Obtenha um diploma universitário em engenharia de transportes, que lhe dará os conhecimentos fundamentais sobre redes, modelos, trânsito, estradas, etc.. A obtenção destas habilitações dar-lhe-á acesso a empregos como quadro médio, seja em consultoras ou em entidades públicas, e há muitas oportunidades para passar para o planeamento no sector do transporte colectivo a partir daí.

3. Obtenha um diploma em gestão ou administração pública e torne-se um burocrata, alguém que gere processos dentro dos órgãos de poder ou das grandes organizações. Apresente-se como gestor de processos e poderá facilmente acabar na gestão dum processo de planeamento de transporte colectivo. Este é, julgo, um caminho muito comum na Austrália e na Nova Zelândia, onde há uma reverência especial para com a gestão em geral e a crença de que gerir não requer experiência profissional prévia na coisa que está a ser gerida.

4. Obtenha um diploma universitário na área do planeamento urbano, com especialização em transporte colectivo, se possível. O leitor aprenderá muito sobre o ordenamento do território, a economia imobiliária, a estrutura urbana, e uma série doutros assuntos úteis relativamente ao funcionamento das cidades em geral. Há imensas oportunidades para explorar o transporte colectivo neste contexto.

— O quê? — pergunta o leitor. — Não há um percurso nem uma formação tipo que todos os peritos em transporte colectivo seguem, e exames de todos eles realizam? Não. Diferentes universidades terão programas com maior ou menor ênfase no transporte colectivo. A nível da pós-graduação, o que importa não são os cursos oferecidos, mas os conhecimentos específicos e os interesses do corpo docente. Mas não há verdadeiramente um currículo padrão, ou um conjunto de qualificações, ou um exame de certificação, que todos os profissionais de planeamento de transportes colectivos tenham realizado.

A diversidade de origens entre os profissionais de transporte colectivo é, em geral, positiva. O transporte colectivo está intimamente ligado a uma série de outras disciplinas, e a melhor maneira de aproveitar essas ligações é ter cada uma dessas disciplinas presente no interior da equipa de trabalho ou da organização. Quando eu crio «equipas de planeamento» para trabalhar intensamente num projecto particular, eu tento misturar vários tipos de formação e qualificações, o que também nos impede de cair na gíria profissional.

Então, há um caminho «ideal»? Tudo depende das metas e competências do leitor, mas eu tenho uma ideia do que é mais necessário. Precisamos de mais pessoas a entrar no ramo pelo caminho número quatro, o estudo do planeamento urbano em geral, porque a agenda de sustentabilidade para as próximas décadas gira à volta da construção de cidades duma determinada maneira. Relembre-se que a forma urbana dita os resultados do transporte colectivo duma cidade muito mais do que o planeamento da rede consegue [2]! Esse é, por exemplo, o motivo pelo qual eu pertenço ao Instituto de Planeamento da Austrália, o corpo profissional para gestores do ordenamento do território, apesar de muitos dos meus colegas pertencem a associações de engenheiros.

Gostaria de receber retorno, nos comentários, dos profissionais de transportes colectivos sobre se consegui descrever correctamente os principais percursos de entrada na profissão, e o que eu deixei passar em branco. Faço notar mais uma vez que eu-mesmo não segui nenhum desses caminhos, e não sou o único. O transporte colectivo é, em última análise, um campo extremamente aberto e permeável, receptivo a muitos tipos de experiência; e, em geral, creio que isso é extremamente positivo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

0 comentários a “Quando for grande, quero ser técnico de planeamento de transporte colectivo”

Ir à universidade (privada) certa, inscrever-se na jota adequada, fazer umas traquinices políticas no aparelho, sempre sempre ao lado do líder e ZÁS. Se não for nos transportes, alguma coisa se há-de arranjar…

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