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O esplendor azul

Por Hélder Oliveira Coelho

Tudo na vida é um constante balançar entre as pequenas e as grandes coisas. Podemos sempre olhar o mundo sob pelo menos duas perspectivas — em crescendo, ou em funil. É, no fundo, a diferença entre quem se foca na nuvem, ou no esplendor do céu. Ainda que tanto nuvens como céu andem sobre as nossas cabeças, cabe a cada um escolher onde gosta de dedicar a atenção.

Há dias, visitei a Espanha. Um frio gélido… uma crise tão ou mais tenebrosa como a nossa. E, nas ruas, havia gente. Havia muita gente. Havia alegria, confraternização. Havia novos e velhos a celebrar alguma coisa, saberá Deus o quê! Ou talvez nem celebrassem coisa nenhuma. Talvez partilhassem só um momento de júbilo. Ser feliz sem razão de o ser. Apenas para ser feliz por uns momentos. Ouviam-se as fanfarras, os cânticos, os gritos e gargalhadas de um certo mar ébrio em que todos mergulhavam. E quem não corria pelas ruas, porque as pernas não ajudavam, ou apenas porque não queria correr, olhava pelas janelas e fomentava a orgia geral.

Era noite… estava frio… estão em crise. Não ouvi queixas, lamentos, choros ou fados. Aquele fenómeno colectivo que, por cá, só me lembro de ver em torno de uma bola de futebol.

Não escuto fanfarras. E, se escuto, ouço a par o comentário jocoso de quem acha a fanfarra algo menor… aquela necessidade intrínseca de ser contido. De parecer bem.

Olhar o mundo pelos olhos da nuvem ou pelo esplendor azul é a diferença entre quem ama, quem não teme apaixonar-se e quem apenas se limita a existir ao sabor insonso do quotidiano.

Uma terra que tem desde a sua origem quem não tenha feito outra coisa que não fosse cantar o amor, vê-se afogada nas mágoas de uma existência aborrecida. Quem escreve sobre o amor, pode não saber bem sobre o que fala. Porque é ridículo falar de amor… porque não se sabe bem o que é o amor. Por todo o mundo, os dias da identidade nacional coincidem com as datas de revoluções, aniversários do soberano, ou o dia da fundação da nação.

Por cá, esta terra, que já em tempos de César se dizia não se governar nem deixar que a governassem, por cá, o dia da Nação é celebrado em nome de um poeta. Celebramos a nossa raça no dia de Camões. Todos os dias me pergunto, se terá havido alguém que melhor tenha cantado o amor [1]? Será este o nosso segredo para o sucesso. A genialidade de bobo com que nos entregamos ao Amor.

Falta isso! Voltar a amar. Amar o que somos, amar o que temos. Amar quem está ao nosso lado. Dizer o quanto amamos. Dedicarmo-nos a tudo com amor. O trabalho passará a ser um acto de amor. Até o tipo chato da repartição nos merecerá um sorriso.

Deixemos de ser mal-amados. Acredito que Portugal deixou se ser o jovem apaixonado, pronto para amar o mundo… para se transformar naquela tia solteirona e mal-amada! E a dúvida que se impõe é: o que cada um de nós quer ser?! O eterno amante, ou o cinzento mal-amado?!

Olhemos o céu pela nuvem, ou pelo esplendor azul.

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