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Olho Clínico

Dez minutos?

Por Sara Teotónio Dinis

O utente entra, troca as saudações iniciais com o seu médico, e começa a queixar-se das suas «dores». O médico regista os sintomas do utente no computador. Depois, levanta-se e vai examiná-lo, à procura de sinais que possam estar relacionados com os sintomas.

Encontra-os — ou então não. Depois dessa busca, interpreta os resultados — ou a ausência deles. Volta à secretária e regista a observação efectuada. Pode ou não voltar a perguntar mais algum pormenor que possa ter escapado à recolha da história clínica inicial.

Seguidamente, procura no programa os exames complementares de diagnóstico que decide requisitar após o raciocínio de integração dos dados de que dispõe. Imprime as requisições, assina-as e entrega-as ao utente. O utente pergunta a preparação necessária a fazer previamente ou quando da realização dos exames, e o médico esclarece, solicitando ao utente a marcação de consulta posterior para vir mostrar os resultados. O médico poderá, nesta fase, prescrever empiricamente um tratamento sintomático adequado à queixa inicial, emitir a receita correspondente, entregá-la ao utente, e explicar a forma correcta de o fazer.

Já perto do fim, o utente pode ainda lembrar-se de pedir receita da sua medicação crónica, que está quase a terminar. O médico procura o registo da medicação no programa, selecciona os fármacos em falta e emite as receitas, que posteriormente assina e entrega ao utente. O utente dobra todas as folhas que o médico lhe entregou, tentando organizá-las consoante os objectivos a que se destinam. Pega nos seus pertences, despede-se e sai do consultório.

O médico olha para o relógio. Idealmente a consulta teria demorado entre dez a quinze minutos. Mas quantos minutos passaram afinal?

Quantos minutos são precisos para fazer uma consulta completa [1], sem cortar a palavra ao doente, sem saltar nenhuma etapa do exame objectivo, sem ultrapassar nenhuma requisição, sem esquecer nenhuma prescrição, sem ignorar nenhuma orientação terapêutica?

Quantos minutos são precisos para atingir o objectivo da consulta — o do utente e o do médico?

Quantos minutos são precisos para ajudar a identificar um problema e orientar a sua solução?

Quantos minutos são precisos para cultivar uma boa relação médico-doente?

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