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Transporte Humano

Triângulos conceptuais

Por Jarrett Walker [a]

Às vezes, temos de pensar em triângulos.

No mundo do transporte colectivo, por exemplo, sabemos que o número de passageiros depende da relação entre a forma urbana (incluindo a densidade e a facilidade com que um peão pode deslocar-se) e a quantidade de serviço prestado. Por exemplo, se nos concentrarmos no transporte colectivo local, o triângulo do transporte colectivo tem o aspecto seguinte:

O leitor pode pensar em estrutura urbana e serviço como causas e número de passageiros como consequência, mas o triângulo pode ser rodado para assumir qualquer posição. Por exemplo, se o leitor quiser justificar um aumento no serviço, quererá tanto apresentar o sucesso existente e também sinais, com base na estrutura urbana, de que há mais potencial. Por outras palavras, o leitor quer dizer:

Utilização + Estrutura urbana → Serviço

Por outro lado, se o leitor quiser densidade urbana como consequência, então quererá uma linha de trânsito que tenha uma imagem de permanência. Para isso, é preciso escolher uma que já tem serviço em quantidade, atingindo um alto número de passageiros.

Serviço + Utilização → Estrutura urbana

Em ambos os casos, a seta para a direita significa «suporta» ou «ajuda a gerar» ou «é uma das condições necessárias cruciais para».

Lembrei-me deste triângulo, porque os trabalhos sobre o transporte colectivo estão cheias de afirmações sobre a relação de dois pontos seus. Alguns destes trabalho tornaram-se célebres. Pushkarev e Zupan, por exemplo, são zelosamente citados em todos os artigos que abordam este assunto. O seu trabalho, datado de 1977, tornou-os uma das mais antigas autoridades que se devem citar no âmbito da investigação em transporte colectivo; eles pertencem já ao Olimpo. A sua conclusão?

Uma densidade residencial líquida de [3.706,5 unidades/Km2] [b] suporta um nível de 10 minutos ou mais num período de 20 horas de serviço.

Esta é uma relação entre dois dos três pontos do triângulo do transporte colectivo, de serviço e de estrutura urbana, sem referência para o terceiro, o número de passageiros. Portanto, o verbo «suporta» oculta no seu interior um pressuposto sobre qual o número de passageiros que é aceitável.

Não há, que eu saiba, nenhum padrão acordado sobre qual o nível de utilização aceitável, nem deve haver. Cada cidade ou agência decide por si mesma. Isso significa que, logicamente, não pode haver resposta para a pergunta: «a estrutura urbana e a densidade x serão suficientes para suportar um nível de serviço y

No mundo anglo-saxónico, claro está, há muitas vezes uma implicação escondida de que o ideal do número de passageiros deve ser «a rendibilidade». Certamente, se esse é o seu objectivo, então o leitor pode fixar essa variável e pode agora olhar de forma mais coerente para a relação entre as outras duas; isto é, torna-se então coerente perguntar: «que nível de serviço deve ser oferecido em resposta a cada tipo de estrutura urbana, de modo a atingir um dado objectivo de rendibilidade?» [c].

Mas, claro, a maioria de nós não acha que o transporte colectivo deva ter a rendibilidade como objectivo principal. Um paradigma baseado no lucro assume que o governo não tem qualquer interesse público no sucesso ou fracasso do transporte colectivo, da mesma forma que não tem interesse no sucesso ou fracasso da Coca-Cola Zero. E, obviamente, isso está errado.

Então, quando ouço as pessoas citar ou actualizar o trabalho de Pushkarev e Zupan, dizendo que a densidade x suporta o nível de serviço y, eu ouço incoerência pura. A declaração não diz nada que seja útil para mim. O que está a escapar-me?

O trabalho de Pushkarev e Zupan foi baseado num pressuposto de utilização claro, expresso na forma de metas de custo por passageiro e custo por passageiro-quilómetro. Infelizmente, a maioria das pessoas que citam o seu trabalho esquece essa parte. Ao fazer isso, dão a entender que o objectivo de número de passageiros que Pusharev e Zupan escolheram é o correcto para a sua própria comunidade, mesmo não sabendo qual é!


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe. (N. do T.)

b: 15 unidades/acre no original. (N. do T.)

c: É certo que a política de preços também tem um papel, sendo ainda uma outra variável a considerar, mas o leitor também pode optar por mantê-la constante. (N. do A.)

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