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Um fosso, duas faces de moeda

Por Hélder Oliveira Coelho

Mostrava-se há dias um amigo preocupado com a incompreensão que hoje os pais manifestam face aos filhos.

Parece-me claro que o fosso geracional não é coisa de hoje. Não creio que haja, na génese, uma grande diferença nos motivos que levam um pai a discutir com um filho. Todavia, há um padrão que se vai repetindo ao longo das diferentes eras. É uma evidência que o único padrão intergeracional não está no fosso, está no amor. Não há qualquer quezília familiar ou antagonismo de pensamento que não tenha origem num profundo amor que um pai sente pelo seu filho e que é recíproco. O que, provavelmente, acontece é que a experiência vivida encaminha um excesso de zelo por parte dos pais, bem como um laxismo revolucionário por parte dos filhos. Mas, em última instância, é o amor que impera nas relações paternas ditas normais.

O que há de facto de novo nos dias de hoje é o profundo desrespeito pelos velhos e um igual desprezo pelos novos. A palavra «velho» é quase proibida [1]! Ou se é sénior, ou se está na terceira idade. Velhos, não existem!

Mas… Todos temos uma data de validade, como a dos iogurtes. Quando ultrapassados os 65, de imediato passamos a inúteis [2]. E estou a usar a pessoa certa, pois também isso me espera.

Na outra face da moeda, estão os jovens entregues ao ócio, ao facilitismo do prazer imediato, o que obviamente só pode conduzir à corrupção dos valores, não só os do metal, mas principalmente os da alma.

Parece-me importante que se ocupe a juventude. Não podemos fazer qualquer referência ao Salazarismo. A história é contada exclusivamente pelos vencedores. Mas, como me estou perfeitamente nas tintas para os crimes de lesa-majestade, tendo em conta que há quem tenha mais responsabilidades do que eu e cometa às claras atentados à democracia, ouso dizer com todas as letras: faz muita falta algo equiparado à Mocidade Portuguesa.

Ocupar os jovens com actividade física e intelectual, bem como atribuir-lhes o sentido de responsabilidade e a noção que devem ser pró-activos face à realidade que os rodeia, são actos fundamentais para uma sociedade evoluída. De igual modo, o respeito por quem já viveu, por quem já errou, por quem sabe na pele o preço dos erros e da inexperiência, é uma mais-valia. Com grande certeza, uma das respostas para a crise reside nestes dois pontos. Valorizar os velhos, ocupar os novos.

Não creio que seja utópico imaginar uma sociedade em que avós e netos caminhem lado a lado e sorriam para o futuro. Uns transmitem o conhecimento, outros executam-no. Não existem certezas absolutas. Não existe só um lado da moeda! A variabilidade é uma vantagem. Só podemos crescer se respeitarmos o que já passou, acreditarmos no que há-de vir, e agirmos em conformidade.

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