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O rating e as cambalhotas de Cavaco

Por Daniel Oliveira (Expresso, 11.VII.2011) [1]

Em 2010, quando a Moody’s descia o rating da dívida portuguesa e uns poucos manifestavam a sua indignação, a esmagadora maioria dos economistas e dos comentadores especializados mostraram o seu desdém: andávamos a queixar-nos de quem apenas analisa factos e emite opiniões, em vez de tratarmos de nós. Um grupo de economistas — daqueles que, por não alinharem pela propaganda oficial, raramente falam na comunicação social — apresentou uma queixa à Procuradoria Geral da República, em que se mostrava como estas agências manipulam de forma deliberada e em interesse próprio os mercados. Ficaram quase sozinhos.

Sobre estas agências e a suposta insensatez de quem as criticava, disse, na SIC, a 31 de Março de 2011, o jornalista e comentador económico José Gomes Ferreira:

— Estes ratings dos bancos e da nossa dívida, que estão todos os dias a cair, reflectem o quê? O conhecimento dos investidores dessa realidade [das contas públicas] — realidade pela qual o governo de então deveria «pedir desculpa».

O nosso Presidente também lamentou o tempo perdido com moinhos de vento. Cavaco Silva avisava que:

— Não compensa absolutamente nada para a economia portuguesa e para o emprego em Portugal estabelecer uma retórica de ataque aos mercados — e deixava o aviso — ninguém conte comigo para prejudicar o País numa retórica desnecessária, que é absolutamente negativa para o emprego no nosso País.

E, sobre a descida do rating, em 2010, dizia:

Não vale a pena recriminar as agências de rating. O que nós devemos fazer é o nosso trabalho para depender cada vez menos das necessidades de financiamento externo. Quando nós não precisarmos de pedir dinheiro no estrangeiro, não temos de nos preocupar com agências de rating.

O governo mudou. O programa que estes políticos e comentadores defendiam foi finalmente aprovado. O nosso rating voltou a descer e tornou-se «lixo». O que passaram a dizer estas mesmas pessoas sobre as intocáveis agências?

Para José Gomes Ferreira, que voltou ao tema a 6 de Julho de 2011, «só os ingénuos acreditam que esta descida do ratings da Moody’s em quatro pontos tem a ver com critérios puramente técnicos». O que dantes reflectia a nossa realidade passou a ser coisa em que só ingénuos acreditam. Aquilo pelo qual antes o governo devia «pedir desculpa» passou a: «isto não é uma questão portuguesa». As agências, que apenas davam «conhecimento» aos investidores, passaram a «servir os interesses obscuros da América contra o euro e os alvos fáceis são a Grécia e Portugal» e de «investidores que querem ganhar dinheiro com os CDS». Felizmente, disse, «nós, jornalistas, podemos dizer com clareza o que os políticos não podem». Podemos? Quando?

Mas mais extraordinário é mesmo o nosso Chefe de Estado, que esquecendo o apelo para o abandono da «retórica contra os mercados» e a constatação de que «não vale a pena recriminar as agências de rating» passou, subitamente, mas só para espanto dos ingénuos que ainda acreditam na sua seriedade política, para o outro lado da barricada.

— Àqueles que sofrem de ignorância na análise, eu apenas posso recomendar um pouco mais de estudo — disse, referindo-se à Moody’s. Do tom professoral dirigido a quem criticava as agências de rating, passou para o tom professoral dirigido às «agências de rating norte-americanas», que, afinal, «são uma ameaça». Coerente, só mesmo a altivez do costume.

Os comentadores dizem o que querem. Apenas falam em seu nome. Concordamos ou discordamos e pronto. Grave é quando um presidente, ainda por cima recorrendo ao seu suposto conhecimento técnico, manda toda a gente calar-se perante decisões que afectam o País quando se quer ver livre de um governo e é o primeiro a gritar quando o governo é da sua cor política. Porque ficamos a saber que, antes do Estado que representa, está o seu partido. Que, antes do rigor, está o cinismo. Que, antes da verdade, está a propaganda política.

Ou o que o Presidente da República dizia em 2010 não fazia sentido e Cavaco Silva, para prejudicar o governo, não hesitava em trair o seu País através do silêncio; ou o que passou a dizer em 2011 está errado e, para defender um governo, não hesita em ser irresponsável. Ou o seu silêncio era oportunista ou as suas palavras são imprudentes. Não se pode dizer para não recriminar quem depois se ataca só porque o partido que governa muda entre uma declaração e outra.

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