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Olho Clínico

Dever

Por Sara Teotónio Dinis

Há uma sensação de dever que me leva a fazer a caminhada diária de cinco minutos até àquele edifício no centro da vila. Eu entro, espero o início das consultas da minha orientadora, e as horas vão passando sem dificuldade, pois há sempre muito que fazer. Já comecei a orientar as consultas sozinha no gabinete ao lado — ao princípio custou um bocado, mas começo a ganhar o traquejo da orientação do pensamento e da conversa do outro, que ali marcou consulta e cuja vinda tem um propósito.

Vou chamá-lo à sala, e ele segue-me na dúvida do que terá acontecido à sua médica de família, pois eu não sou quem ele queria ver, não era comigo que queria falar. Sou uma estranha de bata branca, apresento-me e aperto-lhe a mão; ele retribui olhando-me de lado, mas mesmo assim senta-se na cadeira à minha frente — está transposto o primeiro obstáculo — vamos lá começar.

Um princípio essencial neste começo é o da humildade para, sempre que aconteça, reconhecer perante o utente que ainda não sei fazer determinado procedimento, para lhe dizer que tenho de pedir ajuda à minha orientadora e que temos de esperar que ela venha ao gabinete. Outra coisa essencial é a organização mental e de execução para a identificação dos motivos de consulta, para a realização do exame físico dirigido, e para a integração do primeiro com o segundo resultar num plano de investigação e de terapêutica coerente e possível.

No final das consultas — das que faço sozinha ou das que vejo a minha orientadora fazer —, a despedida é por vezes assim:

— Muito obrigada, doutora, e desculpe lá, sim?

— Desculpe lá o quê? É este o meu trabalho.

Não foi a primeira vez, nem será certamente a última, que irei responder isto mesmo, ou que irei ouvir a minha orientadora responder a mesma coisa. Ela terá as suas razões, mas estas são as minhas — este é simplesmente o meu trabalho. Eu não faço favores — aplico o que aprendi na faculdade na resposta às necessidades de saúde das pessoas, e pagam-me para fazê-lo. Há muitas coisas que já posso fazer pelos utentes, e muitas mais poderei fazer um dia — quando já tiver desenvolvido bem as especificidades desta especialidade. Mas também há muitas outras que nunca poderei fazer — como em qualquer profissão, há coisas que fogem à minha competência e ao meu juízo.

Apesar de tudo o que nos é transmitido diariamente através dos meios de comunicação social me deixar apreensiva perante o futuro do país, dos seus cidadãos… e perante o meu futuro e o dos meus colegas, há um sentimento que me assola e que não consigo suprimir. O meu país investiu na minha formação e ajudou os meus pais a realizar o meu querer. E este país que me ajudou não foi um governo — foram os contribuintes portugueses. Foram eles que me trouxeram até aqui — os meus pais e os outros todos —, são eles que me pagam o salário, e alguns deles serão meus utentes um dia (pelo menos assim o espero). Sinto assim que lhes devo o meu trabalho. Devo-lhes o meu tempo e a minha vontade de fazer mais e melhor. Devo-lhes o querer ficar por aqui e querer continuar a crescer aqui. Devo-lhes isso a qualquer custo? Não sei… mas por enquanto e para mim, o meu custo está bem assim.

Não sou, nem nunca fui, obrigada a nada. Escolhi esta profissão porque quis, tenho-a porque trabalhei muito para a conseguir, e trabalho com vontade porque gosto do que faço. É uma profissão exigente? É, mas eu já sabia que ia ser assim. Os meus colegas também sabiam que ia ser assim — ou, pelo menos, deviam saber.

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