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Estado de Sítio

Ao meu Avô

Por Ana Raimundo Santos

O texto que hoje partilho convosco não é bem uma crónica, é mais um desabafo. Em tempo de Páscoa, celebração religiosa e familiar, de partilha e convívio com aqueles que nos são queridos, fazem-nos falta aqueles que mais amamos e que, infelizmente, já não estão entre nós. O texto de hoje foi escrito há nove anos, mas poderia muito bem ter sido escrito hoje, porque, apesar do tempo passado, as saudades e o amor que sinto pelo meu Avô não diminuíram. Há dias, ao passar naquele lugar, no jardim onde tantas vezes ele me levava para brincar, a saudade apertou e recordei ter escrito estas palavras que hoje partilho convosco.

Fecho os olhos e recuo no tempo. Tenho outra vez oito anos e vejo o Avô sentado num banco do jardim. Veio comigo, como sempre. Eu queria vir brincar para o parque e o Avô trouxe-me. Viemos devagarinho, porque o Avô não pode andar rápido. Gosto tanto deste lugar. É tudo tão grande. Posso correr e pular à vontade.

O Avô diz-me sempre para não ir para muito longe, mas eu não ligo. E corro na esperança de levantar os pés do chão e voar. Quando fico cansada, olho para trás. O Avô continua sentado no banco do jardim à minha espera. Quando me aproximo, olha-me com cara de quem me vai ralhar, mas não o faz. O Avô ralha pouco comigo, isso é trabalho para a Avó. Quando o faz, é porque fiz asneira de verdade. Sei que sou muito irrequieta e reguila, e que estou sempre a fazer o que não devo. E a Avó está sempre a ralhar comigo. Mas, com o Avô, é diferente. Consigo olhar para ele e perceber que não me portei bem, sem que ele tenha de dizer uma única palavra. Olho para o Avô com ar arrependido por não ter obedecido e ter ido para longe, e digo baixinho:

— Desculpe!

O Avô olha para mim e diz:

— Vamos embora, que a tua Avó já deve estar à nossa espera.

E assim regressamos a casa. Não dou a mão ao Avô. Vou sempre um pouco mais à frente, ainda aos pulinhos. Em tom de brincadeira, o Avô diz que tenho bichos carpinteiros e eu acho engraçado.

Abro os olhos e regresso ao presente. Este jardim já não me parece tão grande como antigamente. Antes, todos estes recantos me pareciam imensos e fantásticos. Cada um escondia os seus mistérios e era uma nova oportunidade de aventura. Não foram raras as vezes em que regressei a casa com feridas nos joelhos e nas mãos. Hoje, são apenas recantos, num jardim calmo e silencioso. Quando eu aqui vinha brincar, este lugar estava sempre cheio de crianças. Agora é só um jardim onde se vêem algumas pessoas mais velhas sentadas nos bancos com o olhar perdido no tempo e no espaço.

Este lugar tem o poder de me fazer recuar no tempo e relembrar mais um pouco, e mais uma vez entre tantas, o Avô. Ainda hoje tenho vontade de chamar por ele:

— Avô! Avô! — como tantas vezes fiz. Mas percebo que não vale a pena, porque não o vou encontrar a olhar para mim ali, sentado no banco do jardim. E é então que fecho os olhos e baixinho, num murmúrio quase silencioso, digo:

— Avô, tenho saudades suas!

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