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Médico em part-time

Por Hélder Oliveira Coelho

Disseram-me há dias que «era um médico a part-time»! Ad initium até encontrei uma certa graça no dito. Afinal, desde cedo que me habituo a que me digam que sou um «part-time-boy»! Em miúdo, diziam-me que era um aluno em part-time. Tudo vinha em primeiro lugar. O teatro, o associativismo, a política, os amigos, as brincadeiras… Depois, em part-time, era o melhor aluno da turma. Na faculdade, fui objectivamente um estudante part-time. Paguei-o com uma média de curso mediana. Não envergonha ninguém, não senhor. Mas longe do quadro de honra. Entrado na idade adulta… eis que surge a mesma referência: «És um médico em part-time».

Acontece que desta vez sinto-me obrigado a corrigi-la. Não sou um Médico em part-time. Antes fosse. Provavelmente levaria uma vida muito mais pacata. E perguntam-me, não raras vezes, pela rádio, pelas artes, pelo teatro, pela ópera, pelas viagens… A resposta é quase sempre a mesma: «A minha vida não é a medicina.»

No fundo, os que como eu são Médicos em full-time compreendem que quando a Vida é a Medicina, só podemos ser Saudáveis e Felizes de uma de duas maneiras: ou se faz psicoterapia; ou se parece ser Médico em part-time. A vida de um médico é um desafio constante. Nunca se sabe o suficiente. Nunca somos bons que chegue. Não estamos preparados para o fracasso. Até porque o nosso fracasso é o fracasso de uma Vida. Não a nossa, mas a de outro. Naquele instante em que reconhecemos que não somos Deus, há um mar de profunda frustração que nos preenche a alma. Não devia ser assim. As pessoas morrem contra tudo o que nós esperaríamos. A faculdade não me disse que as pessoas morriam. Não me ensinaram a lidar com isso. Havia só aquela sensação de que se pode sempre tentar. Nunca entendo em que momento da escada saltei o degrau. E no dia seguinte, a vida continua. Haverá alguém que olha para mim e acha que eu sei alguma coisa. E eu venho para casa estudar. Não tenho coragem para dizer: «não sei». Não tenho o direito de dizer «não sei». Quem a mim recorre quer respostas, quer segurança. Não quer um miúdo a dizer: «Não sei». Não quer uma probabilidade, uma estatística, uma evidência. Quer uma certeza, um sorriso que garanta um porto seguro. E eu.. no fundo… não sei. Sou uma vítima da minha própria maldição. Em pequeno disse que sonhava passar o resto da minha vida a estudar. Não sabia o que era a vida, nem sabia que acabaria por fazer cair sobre mim um peso duríssimo — o peso da ignorância. Todos os dias acho que o caminho nunca vai terminar.

Hoje passeei pelo Jardim José de Lemos [1]. Fui ao Parque. Degradados, tristes, abandonados. Até que… olhei com mais atenção. E nos troncos já gastos e cobertos de líquenes surgiam pequenas flores. Pequenas, frágeis, delicadas. Mas todas as primaveras elas lá estão, naqueles troncos gastos e velhos. Todos os dias acho que o caminho nunca vai terminar. Mas todos os dias estou certo que talvez possa ajudar alguém. E saio para o jardim, entro no teatro, leio um poema, compro um gelado a uma criança na rua que não conheço, converso com um velho no banco do jardim. Termino o dia na ópera. Caem sempre algumas lágrimas e penso… vou estudar.

Conta-se que Rossini um dia foi visitar Beethoven, já numa fase adiantada da doença. Schubert apresentou-os e Beethoven disse: «Bem sei, o do barbeiro.». Rossini, embuido no espírito de inferioridade de que a música italiana era menos séria do que se fazia por compositores germânicos, tentou mostrar a Beethoven que também ele fazia música séria. Ao que Beethoven terá respondido: «Não quero ver.». Quem compõe uma ópera como o barbeiro não precisa compor mais nada! Deixo-vos com uma das áreas mais bem-dispostas de «O Barbeiro de Sevilha», uma ópera bufa do século XIX [2].

0 comentários a “Médico em part-time”

Todos precisamos da autoconfiança e da alegria do Barítono Kapsung Ahn… E também da humildade do grande Rossini… Paradoxo? Nem por isso. Parabéns pelo texto. Obrigada pelo excerto da Ópera, convém recordar com assiduidade…

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