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Olho Clínico

Flagrantes

Por Sara Teotónio Dinis

Na Sexta-feira, discutia-se quem devia renovar a carta de condução a um diabético, num encontro de Diabetologia. A lei de Novembro de 2012 [1] obrigava o médico especialista em Endocrinologia a assegurar essa capacidade aos diabéticos; algumas pessoas com doenças cardíacas também se viram obrigadas a ser avaliadas por um cardiologista, para o mesmo efeito. Ora, tal questão gerou nos médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar uma grande dor de cabeça, pois tiveram de passar a referenciar pessoas para os hospitais com esse propósito não patológico, motivando o seu descrédito junto dos colegas especialistas hospitalares e o descontentamento destes, fazendo perder tempo a toda a gente e atrasando todo o processo…

A situação contornou-se com uma alteração de linguagem no texto da lei, em que se escreveu resumidamente algo como «a renovação da carta deve ficar a cargo de médico especialista», não havendo especificação da especialidade responsável em nenhum dos casos especiais — mais um remendo governamental cosido ao estilo desenrasquez-vous [2].

Na letargia daquelas horas pós-prandiais, eu pensava tranquilamente e com alguma segurança nos vários casos que nos aparecem, de pessoas com mais de cinquenta anos a querer renovar a carta, que têm as patologias referidas, às quais avaliamos a acuidade visual e auditiva e a quem pedimos para ir fazer, pelo menos, umas análises gerais e um electrocardiograma, antes de passar o documento.

No sábado, alguém foi fazer a boa acção do ano e satisfazer um desejo de há já algum tempo. Depois de fazer essa parte, esta pessoa ia tranquila no seu carro, a 50km/h, a percorrer uma avenida no sentido Sul-Norte, quando inesperadamente um veículo se apresenta à sua frente, vindo duma rua à direita, e choca com a sua viatura! A viatura inocente é arrastada e fica atravessada na via de sentido inverso, com a frente direita amolgada!

Depois deste momento kodak, o veículo intruso não pára! Soma e segue contra um dos passeios do cruzamento, que acaba por fazer girar inesperadamente a sua trajectória em cerca de 45° e o faz continuar a sua marcha rumo ao muro do prédio do outro lado da estrada, onde embate e acaba por parar.

Daquela viatura saiu um senhor de cabelo cor da neve, com avantajado perímetro abdominal, envergando óculos de lentes demasiado grossas e movendo-se com a lentidão de quem sofre de artroses. Tinha mais de oitenta anos. Não respeitou o sinal de STOP. Mais tarde, disse:

— Eu parei, acredite. Mas vi-a lá longe a vir devagarinho e achei que tinha tempo de passar… Calculei mal a distância e olhe… foi o que se viu.

De quem é a culpa? Perguntei e pergunto-me. É do senhor? É da idade? É duma legislação que permite que a carta seja renovada até dar, por um «médico especialista, ponto final»? É do coração mole de quem não quer negar (mais) uma liberdade a um senhor idoso? Ou é do facilitismo do «não me quero chatear hoje»? Não digo que não compreenda a dor de alma de quem vê esta capacidade/necessidade negada quando chega a um certo ponto longínquo na vida… Mas, quando a lei não é sensata, tem de imperar o bom senso do agente decisor…

Quero pensar que a culpa não é do médico que lhe renovou a carta de condução, não há muito tempo… Mas esta anedota universal em bólus serviu para me assegurar que a avaliação da acuidade visual e auditiva, as análises e o electrocardiograma são, sem dúvida, muito insuficientes para atestar a capacidade e robustez física e mental para conduzir.

— Toma lá e aprende [3].

Ora pois então…

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Se cada um dos animais racionais, novo ou velho, não tivesse em excesso o que arrelia o MEC, saberia retirar-se de cena antes de tornar-se inconveniente…

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