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Os Holandeses e o bacalhau

Por Gustavo Martins-Coelho

Acabou a pausa [1]. Voltemos ao que interessa. Às especulações. Aos espéculos. Ao spekulaas [2]. O spekulaas numa festa de aniversário.

As festas de aniversário holandesas são habitualmente em casa do aniversariante. Muito do convívio entre amigos nos Países Baixos acontece em casa do anfitrião.

Os Países Baixos têm uma tal auto-estima que, apesar de serem um paìsito com metade da área de Portugal (que já não prima pelo tamanho, embora haja quem nos queira convencer de que Portugal não é um país pequeno), acham que merecem ser tratados no plural. Podia ser o País Baixo. Mas não, são os Países Baixos. Sempre no plural, em estilo majestático.

— Deus fez o Céu e a Terra, os Holandeses a Holanda — dizem eles. Se isto não é elevada auto-estima…

— O resto é feito na China — já ouvi dizer. Ora toma!

Ainda por cima, os Países Baixos não sabem geografia: a Holanda do Sul fica a Norte do Brabante do Norte. Nem os Holandeses percebem porquê. Nada mais tenho a acrescentar.

As festas de aniversário holandesas são habitualmente em casa do aniversariante. Os restaurantes são caríssimos e servem daquela nouvelle cuisine que obriga o degustador a ter um doutoramento só para descodificar o nome do prato e fazer um transplante de papilas gustativas para se aperceber do que raio está a comer.

Sucede-me frequentemente desistir de entrar num restaurante depois de ler a ementa exposta à porta, por sentir que não tenho habilitações académicas suficientes para provar daquela comida. Tenho medo de que o chefe de mesa ou o escanção me peçam o currículo e me digam, com simpatia piedosa:

— Obrigado pelo seu interesse, mas o senhor não tem qualificações para este prato. Vamos servi-lo a outro candidato mais qualificado. Mas, se quiser, para si, temos bacalhau albardado.

Nunca comi, que me lembre. Mas acho um nome de prato giro. Faz-me pensar em bacalhau aldrabado.

0 comentários a “Os Holandeses e o bacalhau”

[…] A arte contemporânea faz-me sentir estúpido e insensível. Não é a única coisa que me faz sentir estúpido, mas fá-lo com particular talento. Por mais que olhe com atenção, que inspire fundo, para absorver a cor, a forma, a matéria em sinestesia, por mais que busque um significado, ele elude-me. Enfim, trata-se apenas de mais uma das coisas para as quais não tenho suficientes habilitações académicas [5]. […]

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