Categorias
Docendo Discimus

Os carneiros são os outros

Por Hugo Pinto de Abreu

Que privilégio ser o primeiro colunista da «Rua…» a escrever após conhecidos os resultados das eleições para o Parlamento Europeu de 2014 [1]! Mas não quero acrescentar nada à vaga de pequeno comentário, aliás a roçar o analfabetismo político, quando se fala de alguns resultados noutros países — i.e. ficámos a saber que o «Partido Nacional-Socialista» (sic) elegeu um eurodeputado na Alemanha, segundo o Público [2] —, dado que assumi o compromisso de, nesta coluna [3], tentar ir para além da espuma dos dias e das notícias [4].

Vejo alarme generalizado. Dizem que a abstenção é gigantesca, que os partidos «convencionais» estão em perigo, o que se deve à maior preponderância de «radicais», em face do menor número de eleitores. Sugere-se o voto obrigatório.

É certo que a abstenção é elevada, e, pelos dados que consultei, é especialmente alta nas camadas mais jovens da população («la participation au scrutin n’a concerné qu’un quart des moins de 35 ans (27%) alors qu’elle a réuni 60% des personnes âgées de 60 ans et plus» [5]). É evidente que é um dado objectivamente mau, mas podia ser bem pior.

É evidente que o ideal seria que todos, em particular os mais jovens, por terem mais acesso à informação, estivessem politicamente formados, informados e motivados. Mas, se não estão, é mau que se abstenham?

É por isso que penso que o voto obrigatório em nada resolveria o problema, arriscando-se a agravá-lo. Se alguém não tem motivação nem interesse suficiente para conhecer um (pelo menos) programa eleitoral, é benéfico que essa pessoa vote? Votará com que base?

Vejo, portanto, com esperança os resultados destas eleições, em Portugal e na Europa: penso que caminhamos para um voto progressivamente mais livre e informado.

Enquanto se votar num partido como num clube de futebol (a este respeito, incomodaram-me as declarações de Manuela Ferreira Leite [6]), não pode sequer haver um simulacro credível de democracia, apenas o arrastar de dois ou três aparelhos partidários (três, dado que o CDS conseguiu, em poucos anos, criar uma clientela formidável) sempre iguais, combinado com um marketing profissional, limpo, bem-pensante, cuidado, «de classe média», para capturar os indecisos e assim formar pseudo-maiorias sociais.

Mas os «carneiros» são sempre «os outros».

— Os tipos que votam PS são uns carneiros, uns ignorantes. Ora é para o tacho, ora é porque são pessoas básicas que votam sem pensar — pensa um certo tipo de eleitor do PSD-CDS que eu conheço, enquanto faz exactamente o mesmo. E vice-versa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *