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Olho Clínico

Avaliação familiar

Por Sara Teotónio Dinis

Os meus primeiros meses de internato estão a avançar aos saltos, de trabalho em trabalho. Num dos trabalhos obrigatórios da primeira valência da especialidade, eu devo avaliar trinta famílias do ficheiro da minha orientadora.

A avaliação familiar é importante porque «o sofrimento ultrapassa sempre o âmbito individual» [a]. Realiza-se no sentido de perceber a dinâmica familiar, com o objectivo de entender sintomas inespecíficos que o indivíduo apresenta, por exemplo, ou de prevenir repercussões familiares graves de determinado acontecimento na vida familiar, ou da existência de algum comportamento desviante num dos membros do agregado. O entendimento da orgânica familiar dum utente reveste-se de muita importância não só por isto; há muitos outros motivos para se abordar este tópico tão pessoal durante a consulta.

No trabalho que vou ter de concretizar, é suposto perguntar a um dos membros da família em causa, entre outras coisas, dados relativos às condições de habitação, ao rendimento que sustenta a família, a ao grau de satisfação que tem relativamente aos outros membros que consigo compõem o agregado — à forma como estes o respeitam, o apoiam, e manifestam as emoções e sentimentos.

Este trabalho, que é importante, está a ocupar-me estes dias; e assaltam-me várias dúvidas… Vou ser eu, cara quase desconhecida, a fazer estas perguntas tão pessoais… A «invadir» a privacidade daquela pessoa… Por que é que alguém que não me conhece de lado nenhum iria responder-me com sinceridade? Como é que aquela pessoa se vai sentir quando eu lhe perguntar: «está satisfeito pela forma como a sua família discute assuntos de interesse comum e partilha consigo a solução do problema»? Como vai aquele utente interpretar a pertinência deste tipo de perguntas? Será que esta avaliação a roçar o interrogatório vai ter repercussões na relação futura daquele utente com a minha orientadora?


Nota:

a: João Sequeira Carlos in «A família em Medicina Geral e Familiar — conceitos e práticas».

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