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Noutras Ruas

Eu gosto

Por Patricia Garcia (Pelocha Living Abroad, 13.VII.2010) [a]

De dormir. De não madrugar. Daquele pedacinho de manhã em que estás na cama, acordando mas ainda dormindo. Da babita que te cai quando a sesta sabe bem. Do cheiro dos lençóis de manhã. Ou acabados de lavar. De andar descalça. De Nesquick pela manhã. De caminhar. De passear. Do cheiro a alfafa no campo. Da água do chuveiro caindo-me em cima. De levar a Veda a passear. De escrever disparates. De falar. De falar muuuito. De comer devagar. Da pontualidade. De sonhar. Melhor acordada. Da ordem, de ter todos os meus passos planeados. De improvisar sobre um plano feito.

De observar as pessoas e descobrir o que pensam. De olhar nos olhos e ler sentimentos, pensamentos. Do olhar dalguém tímido. De olhar os olhos ao perto e ver neles manchitas de tons diferentes. Duma lágrima sincera.

Dos olhos expressivos. Especialmente os azuis. Os olhos são o espelho da alma. Dum sorriso. Da boca. Do cheiro a homem (limpo). Das suas mãos se forem «efeminadas». Do tronco masculino não musculoso.

Que me abracem enquanto durmo. Mesmo que faça muito calor. De suar. Dos mimos, dos beijos, das carícias… De acordar a meio da noite e observar a pessoa que dorme ao meu lado. Da sua face. Que me protejam. Que me queiram. Dos pormenores não materiais. Das pequenas coisas. De surpresas. De mimá-lo, de beijá-lo, de acariciá-lo, de cuidá-lo e de protegê-lo. De lhe acariciar o cabelo, e também o peito. De vê-lo acordar devagar.

Do abraço de um bom amigo. Até me partir os ossos.

De roupa sensual. De insinuar sem mostrar tudo. De provocar, às vezes. De vestidos, de saias. De roupa justa. De roupa interior bonita. Do sapato raso. De pouca maquilhagem. Do cabelo comprido. Dos bares repletos de gente. Do La Cucaracha. Da cerveja Guinness. De vodka com limão. Dum «vai-te lixar» no La Cucaracha. De lá encontrar a gente de sempre. De recordar as pessoas especiais que já não estão lá. De imaginar que vêm todos juntos. De quantos aviões preciso para que se cumpra? De brincar com os engatatões do bar. De estilhaçar a sua auto-estima. De falar com aqueles a quem nenhuma liga. Duma festa até à alvorada.

Dos homens tímidos, diferentes, estranhos. Dos homens, não dos rapazes. Dos homens directos. Que falam sem rodeios nem meias palavras. Dos homens que chamam amor ao amor e sexo ao sexo. Não dos que disfarçam de amor as suas intenções de levar-te para a cama. É completamente desnecessário; as mulheres também gostam de sexo. À primeira vista, de loiros e à segunda, e à terceira. À quarta vista, talvez sirva algum moreno. Só talvez.

De conversa inteligente. Que me contem coisas que não sei. Que despertem a minha curiosidade e a minha admiração. De pessoas que sabem o que querem e lutam por isso. Aceita o que não podes mudar e muda o que não podes aceitar.

De ver fotos e recordar coisas do passado. De ler cartas, e-mails e mensagens antigos e reviver sentimentos do passado. De gente especial. De viver o meu passado, mesmo que doa. O bom nunca morre, se há algo que to recorda.

De me mexer. De viajar com uma mochila, um mapa, um albergue barato e um amigo/a. De me perder e de encontrar-me. De visitar as pessoas que amo.

De ouvir uma música nova. De ver filmes. De ler blogues. De línguas. Do sotaque dalguém doutro país.

Do mar. De me sentar na areia ou num penhasco e ver as ondas. De sentir a brisa no meu rosto. Do cheiro da água do mar. De olhar o infinito, procurando o ponto onde o mar se junta ao céu. Do céu azul com algumas nuvens, não do céu nublado com alguns pedaços azuis. Do sol. Do calor.

De dar minha opinião quando ma pedem. Sem paninhos quentes. De não ser politicamente correcta. De dizer «odeio-te» aos meus amigos, quando na verdade lhes estou dizendo o quanto os quero. De que o entendam. De pessoas que entendem o sarcasmo e a ironia. De «atormentar» os meus amigos (não me ocorre melhor tradução para «ser cheeky»). De esconder as minhas lágrimas com um sorriso e de que ninguém se dê conta de que, enquanto sorrio e salto de alegria, na verdade estou triste e só me falta um abraço para começar a chorar. De parecer, às vezes, uma pessoa forte, fria e calculista. De certa forma, sou.

De quebrar a minha armadura muito de vez em quando, em artigos como este, e surpreender as pessoas que crêem conhecer-me. De facto, adoro surpreender.

Dos infinitos testes de personalidade que as pessoas enviam por e-mail. De ler as respostas dos demais. Da cor azul. Do número 13. E do 3. De tulipas. De cães, lobos e golfinhos. Da Veda. De tortilha de batata. De Ferrero Rocher. De sumo de pêssego. De pedir desejos às estrelas. Embora nunca aconteçam. Há sempre uma primeira vez para tudo. De finais felizes. Do Verão. De comédias românticas ou filmes de terror psicológico. Da Segunda Guerra Mundial e do nazismo. De Parapsicologia e demais ciências ocultas. De etologia e adestramento. De publicidade. De ensinar Espanhol. Das pessoas optimistas. De piercings e tatuagens que não se vêem. De receber uma mensagem a meio da noite ou do dia, dizendo: «lembrei-me de ti por blá-blá-blá.

E tu, de que gostas?


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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