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Olho Clínico

Tempo de poda

Por Sara Teotónio Dinis

Há uma semana, o Gustavo [1] e eu estávamos em Óbidos a ouvir e a aprender coisas giras. Durante dois dias, tivemos oportunidade de ouvir vários doutores falar e partilhar alguns ensinamentos interessantes.

Um dos doutores trouxe um conceito giro para a discussão — a vida segundo as árvores. Ou melhor, o que podem as árvores ensinar-nos. Duas lições.

Lição n.º 1: As árvores não saem do mesmo sítio.

A não ser que alguém as mova, ou haja intempéries de dimensões bíblicas, as árvores não saem do sítio onde nasceram. Apesar disso, sobrevivem às mais diversas condições climatéricas.  Vão estendendo raízes em direcção aos lençóis freáticos e ramos em busca dos raios solares.

Dado que se estava a falar de liderança, eu julgo que esta lição tinha como objectivo exemplificar a resiliência. E talvez também um pouco a capacidade de encontrar em cada pessoa o melhor que ela tem a oferecer à equipa e usar assim habilmente as várias capacidades presentes no grupo, tendo em vista objectivos comuns. É um ponto de vista.

Mas, esquecendo o tema que se discutia, outro ponto não se deve esquecer — nós não somos árvores. Ou, pelo menos, não estamos confinados ao mesmo lugar para o resto da nossa vida e não dependemos de terceiros para mudarmos de sítio e procurarmos melhores condições.

Lição n.º 2: As árvores devem ser podadas.

E porque se devem podar as árvores? Para retirar os ramos mortos e doentes, no sentido de prevenir pragas de insectos e outros microrganismos, e para fornecer mais água e nutrientes aos ramos saudáveis. A poda serve também para manter uma estrutura forte — ao eliminar ramos mais baixos ou ramos menos estáveis, que podem ser vulneráveis a tempestades; estamos a prevenir possíveis danos resultantes da queda dos mesmos em caso de intempérie, ou mesmo a secção de parte do tronco principal devido ao peso que estes ramos podem atingir. Ramos erráticos e rebeldes podem alterar o crescimento dos outros, deformando a árvore; a sua remoção precoce pode prevenir esse cenário.

O senhor prosseguiu a alegoria, explicando que, ao longo do seu percurso profissional, foi fazendo várias opções em detrimento doutras, tendo em conta a forma e a força que queria imprimir na sua carreira. Interrompeu o internato médico para fazer o doutoramento no estrangeiro, onde começou também a ensinar. Depois voltou e suspendeu o ensino para se dedicar exclusivamente à especialidade. No final, voltou ao ensino. Está entretanto a liderar uma vasta equipa, responsável pelo desenvolvimento duma ferramenta informática de aplicação médica.

Em suma, temos de saber optar. E optar é um imperativo para a evolução. Pode um trabalhador não optar? Penso que não, pois mesmo a não opção é uma opção com consequências.

A carreira médica não passa só pelo estudo da clínica, do diagnóstico e do tratamento. A nossa carreira exige muito mais — exige um amplo entendimento humanista, uma disponibilidade universal, vastas capacidades linguísticas, treino comunicacional, e espírito de equipa.

Nestes tempos de mudança em aceleração constante e uma exigência cada vez maior de eficiência, temos de nos questionar: o que queremos estar a fazer daqui a um, cinco, dez anos? É-nos inconscientemente exigido que façamos essa reflexão. Que galhos temos de cortar? Que ramos queremos fazer crescer?

Aquele fim-de-semana foi uma oportunidade rara de aprofundar tudo isto. Pena que se contem pelos dedos duma mão as ocasiões em que este treino de aptidões acontece, ao longo do curso de Medicina, em Portugal. Pena que a maior qualidade do médico seja entendida como inata, quando pode (e deve) ser ensinada e estimulada.

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