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Desgaste

Por Hélder Oliveira Coelho

Estive quase em tratamento médico. Um governo que me crê operário deste grande polvo que é o Estado. As administrações que se satisfazem mais com o número de horas que eu passo num serviço, em vez de perceberem se sou ou não produtivo. Um ministro que acha que me deixo subornar com meia dúzia de ovos, uma couve, ou um polvo. Um ministro que acredita que é menos interesseiro o vendedor de remédios do que o prescritor. Os impostos que me consomem, um primeiro-ministro que se lembra de insultar a Constituição do País que governa [1]. Boas razões para me pôr a caminho do psiquiatra.

Mas vai daí… Eis que vem o festival da canção! Ora, já se sabe que eu adoro o festival da canção. Este ano estava convicto que até isso seria monótono, nem o festival tinha o poder para me animar. Deitei-me a caminho e fui trancar-me em São Carlos. Pensei:

— Se não for isto, nada mais vale a pena.

Regresso a casa. Triste, cansado, desiludido. Ligo os canais de notícias, sem som. Vejo uma senhora de barba. A minha intuição diz-me: hirsutismo, coitada. Todavia, o meu bom-senso diz: e maquilhagem, filha? Não?! Nosso senhor deu-te problemas, mas também te deu maquilhagem para os tapares. Resulta quase sempre. É como se viesse alguém importante a nossa casa e repentinamente tudo tivesse de parecer limpo e com vida. Imagine-se, mal comparado, que é o Presidente da República, ou assim, e que temos de lhe dar uma fita para cortar, para que ele se sinta útil. Fazia-se o mesmo ao Almirante Américo. Mas assim que o Américo caiu em desgraça, só lá em casa é que alguém lhe dá fitas para ele cortar. Que pena que tenho do Américo. Se ele não se desse importância, quem lha daria? Dou eu agora, pois é! Não é? Não que o nosso presidente seja tão inútil como o Américo Tomaz. Voltando à maquilhagem. Fui pôr os óculos. Macacos me mordam. Não era hirsutismo. Era um traveca. Soltem-se as bandeiras. Os Russos a triparem de fúria (por mim, só isso é que valeu a pena, tudo para irritar os Russos). Quanto à Shirley Bassey hirsuta, veio abrir uma caixa de pandora. Agora, ninguém mais saberá se um homem de saias é afinal de contas um escocês de kilt, ou alguém que está a caminho do Finalmente (que para quem não sabe, é um bar da especialidade homens de saias), ou se vai de matrafona para o carnaval de Torres. Não! Um homem que se preze agora tira os pêlos, excepto os da barba, e marcha em passos curtos porque, a saia travada não permite mais, para o festival da canção.

— Aonde vais de vestido, Aníbal? O que é que as pessoas vão dizer?

— Ao festival da canção, Maria! Com a graça de nosso senhor.

Ontem, por esta altura, morriam milhares de homens no primeiro passo para o fim da Segunda Grande Guerra. É bom que não o esqueçamos quando cantamos pelo fim da Europa. Ficava mais feliz por ver cantar pelo fim dos maus políticos da Europa. Esses que acham que ovos e couves corrompem médicos, mas as regalias de Bruxelas são um mal menor para um povo sem esperança e afastado da política.

O nosso garante de estabilidade mora em Buckingham. Acho que só a Rainha Isabel é que está de pedra e cal. Nem o Rei de Espanha escapou ao desgaste.

Quanto a mim… Aviso os senhores ouvintes de que a barba está no ponto, os vestidos a ser escolhidos, para o ano ainda ganho o festival.

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