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A Judite e as bodas de Fígaro

Por Gustavo Martins-Coelho

É importante fazer notar ao mundo que a Judite de Sousa troca o erre pelo dê [1]. Para já, porque é serviço público. Pode ser que, assim, a tirem da frente das câmaras. Mas, sobretudo, porque a Judite de Sousa troca o erre pelo dê, não o dê pelo erre. Quando quer dizer erre, sai-lhe um dê, ao invés. Mas, quando quer dizer dê, di-lo sem dificuldade de maior; não o troca por um erre.

Esta salvaguarda é importante porque os habitantes do Porto e arredores também trocam letras quando falam, mas são injustamente acusados. Os nortenhos trocam os vês pelos bês, não os bês pelos vês, como sói dizer-se. Quando se troca uma coisa, troca-se o que está pelo que não está. Trocamos um cromo que temos por um que não temos, para completar a colecção do futebol. Ou outra qualquer. Mas as do futebol são mais fixes. Trocamos uma nota que temos por moedas (ou notas de menor valor) que não temos. Ou então ninguém tem dinheiro para nos fazer a troca; também acontece com muita frequência. Sobretudo agora, com as novas notas de cinco euros. O multibanco passou a só dar notas de dez [2]. Et caetera. Os habitantes do Norte trocam o vê que lá está pelo bê que lá não está. Mas ninguém troca o bê, quando é ele que lá está, pelo vê que lá não está… A bem dizer, até há quem os troque (os bês pelos vês), de facto, mas são uma minoria degenerada, que soa mal até aos ouvidos dos nortenhos. São pessoas avençoadas. Dá vontade de excomungá-las!

Não sei quem começou a acusar os nortenhos de trocarem os bês pelos vês, mas, quem quer que tenha sido, é um troca-tintas, há que dizê-lo com frontalidade.

Gostava de ver a Judite de Sousa a apresentar uma notícia que envolvesse «As bodas de Fígaro». Seria um espectáculo muito hepático.

Um comentário a “A Judite e as bodas de Fígaro”

[…] Também no metro somos esquizofrénicos mobilizados. Uma outra senhora, agarrada ao altifalante, anuncia duas vezes a próxima paragem. Deve ter vocação para distribuir correspondência. Só que, em vez de tocar duas vezes, anuncia a paragem duas vezes — a primeira baixinho, timidamente, como quem não quer incomodar; a segunda em voz alta, para toda a gente ouvir e perceber que, se calhar, chegou ao seu destino. Quando chegamos a Francos, oiço a senhora do altifalante dizer que a próxima paragem é Frangos. Deve ser um problema de pronúncia. Tal como o da Judite de Sousa [1]. […]

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