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O Muro das Lamentações

O meu dia tem vinte e cinco horas, ou a apologia do transporte colectivo

Por Gustavo Martins-Coelho

Eu moro a pouco mais de cinquenta quilómetros do trabalho. Se isto fosse numa metrópole mundial, quase não sairia da mesma cidade para ir de casa até lá. Mas em Portugal é tudo mais pequeno e, por isso de casa ao trabalho mudo de concelho, de distrito e de região. Mas, de qualquer forma, cinquenta quilómetros não é uma distância que torne a vida miserável — faz-se em 35 minutos, pela auto-estrada.

Mas eu vou de comboio, porque poupo tempo. A viagem de comboio demora 31 minutos. Dir-me-á o leitor que não estou a contabilizar o tempo que demoro de casa à estação e da estação ao trabalho e que, mesmo que more e trabalhe ao lado das respectivas estações, de 35 para 31 minutos não é uma grande vantagem de tempo — e de certeza que frequentemente gasto mais do que esses quatro minutos à espera do comboio.

É verdade: de casa à estação, são onze minutos de carro; e, da estação ao trabalho, são mais dezasseis minutos a pé. No total, 58 minutos, sem contar com os tempos de espera pelo comboio. Então, por que é que não vou de carro e poupo 23 minutos por viagem (ou seja, cerca de três quartos de hora por dia)?

Começo pelo preço, para dizer que é o argumento menos relevante. A viagem de carro ficaria por cerca de €7,92, segundo a simulação do ViaMichelin [1]. Chegar à estação, segundo o mesmo simulador [1], custaria €1,25; como o bilhete de comboio €2,55 (preço para uma viagem única, se se considerar a hipótese de adquirir um passe mensal o preço de cada viagem será bastante inferior), a opção por este meio de transporte fica, então, no total, por €3,80, representando uma poupança diária de €8,24 em relação à opção pelo carro (para saber qual a poupança no final do mês, é só fazer as contas, como dizia um célebre político [2], mas posso asseverar que ultrapassa os cem euros). Contudo, como disse, o preço é o que menos importa. Segundo o meu patrão, cada hora do meu tempo vale €10,59 [3]. Por essa ordem de ideias, os 46 minutos que pouparia, por dia, se fosse de carro, justificariam uma diferença de preço de €8,12, ligeiramente inferior à diferença que acabei de calcular.

Passemos, portanto, à razão principal da minha preferência pelo comboio: o tempo! Deslocarmo-nos é uma tarefa que consome tempo e que apenas serve para nos colocar no local onde é suposto fazermos as coisas que realmente preenchem a vida — trabalhar, descansar, divertirmo-nos, etc.. Se conseguirmos minimizar o tempo gasto em deslocações, maximizamos o tempo gasto noutras tarefas mais produtivas (ou totalmente improdutivas, mas absolutamente prazenteiras). Façamos, então, as contas ao tempo. Se eu for de carro, gasto setenta minutos por dia exclusivamente a deslocar-me. No entanto, se eu for de comboio, gasto 54 minutos exclusivamente a deslocar-me (de e para as estações) e mais 1h02 a fazer duas coisas simultaneamente: viajar e outra coisa qualquer — ler, por exemplo. Foi assim que li catorze livros nos primeiros seis meses de 2014. Para os ter lido se tivesse preferido ir de carro, precisaria de que o meu dia esticasse dezasseis minutos, tomando por exactos os tempos de viagem aproximados que referi anteriormente.

Mas há outras razões. Para mim, que não gosto de conduzir, o comboio é um momento de relaxamento diário, por contraponto ao estresse de arriscar a vida a partilhar a estrada com condutores sem o mínimo respeito pelo código da estrada (em boa verdade, os condutores portugueses são, em geral, bons condutores, no sentido em que conseguem dominar um automóvel sem dificuldade e desenvencilhar-se com destreza dos obstáculos com que se vão deparando, mas excessivamente confiantes, sem qualquer consideração pelo próximo e absolutamente ignorantes — ou desrespeitadores — do código da estrada). Além de prevenir o estresse, ir de comboio ainda ajuda a manter um estilo de vida saudável: dezasseis minutos de caminhada de manhã, da estação ao trabalho, mais dezasseis minutos à tarde, em sentido inverso, perfazem a meia hora de exercício físico diário recomendada (embora devesse ser meia hora seguida, mas, ei!, a vida também não tem de ser vivida exclusivamente em função do que dizem os médicos). Depois, há o convívio. O comboio (e o transporte colectivo em geral) é uma boa forma de encontrar velhos amigos e de fazer novos. Um comboio é, no fundo, uma enorme sala de estar com rodas. Já perdi a conta às agradáveis conversas que tive com amigos, colegas de trabalho, colegas de escola, professores, etc. que fui encontrando no comboio (e noutros meios de transporte), assim como com perfeitos desconhecidos com quem me cruzei e que se revelaram companhias interessantíssimas durante o tempo da viagem.

Por tudo isto, apenas posso recomendar ao leitor que experimente o comboio, ou o metro, ou mesmo o autocarro. Mesmo que, a priori, lhe pareça que vai perder tempo — o que nem sempre é verdade, pois, em muitos casos, o transporte colectivo é mais rápido do que um carro atolado num engarrafamento —, verá que isso será largamente compensado pelo convívio ou pela leitura. Se não gostar de ler, agora até pode aproveitar para ver o programa do Goucha no MEO Go [4], ou então para dormir. Abandone o preconceito (os transportes colectivos em Portugal, não sendo os melhores do mundo, não são tão maus como o comum dos cidadãos crê) e verá que não vai querer outra coisa. E, se formos muitos, a oferta até tem tendência a melhorar!

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