Categorias
Estado de Sítio

Os eufemismos da morte

Por Ana Raimundo Santos

Prólogo

Ao contrário do que o leitor possa ser levado a pensar pelo título desta crónica, o texto que se segue propõe-se a ser um elogio à vida. Espero que, no final, possa entendê-lo dessa forma.


Hoje de manhã, ao tirar o «Expresso» [1] do saquinho da praxe (sobre este saquinho teria páginas e páginas de considerações a tecer, que não têm lugar na crónica de hoje) procurei de imediato a «Atual» — estava a apetecer-me um pouco de cultura e descontração.

Na capa uma fotografia de Sophia [2].

Sorri.

Desde pequena que me lembro desta senhora, com ar de avó, que alimentava os meus sonhos e a minha sede de literatura. Desde «A Floresta», passando por «A Menina do Mar», «O Rapaz de Bronze», «O Cavaleiro da Dinamarca» ou a «Fada Oriana», os contos de Sophia povoaram a minha infância e ajudaram-me a crescer apaixonada pelas letras. Já na adolescência descobri a sua poesia e, com ela, uma nova forma literária que me fez apaixonar, dando origem a um amor que dura até hoje e que, suspeito, durará o resto da vida.

Cresci com as palavras de Sophia, com ela aprendi a dar-lhes valor, apaixonando-me de tal forma por elas que sempre lhes dei um lugar especial na minha vida. Quando ela morreu, faz dez anos na próxima quarta-feira, dia 2, lembro-me de ter sentido que a literatura portuguesa ficava mais triste e mais pobre.

Não me enganei! Considerada como um «panteão» da poesia portuguesa, Sophia terá, no ano do décimo aniversário da sua morte, honras de Panteão Nacional [3], em data ainda a definir. No último ano o Panteão Nacional andou nas bocas dos Portugueses, nas páginas dos jornais, e nos noticiários televisivos numa tentativa de serem esgrimidos argumentos contra ou a favor da trasladação de determinadas figuras públicas para aquele monumento. Muitas delas causaram-me arrepios, especialmente pelos argumentos utilizados, mas quando surgiu o nome de Sophia na minha mente soou um inequívoco «claro que sim!». Esta grande senhora das letras e da vida portuguesa merece honras de Panteão, a menos que outra fosse a sua vontade.

Olhar para expressão de Sophia naquela fotografia e perceber, mais uma vez, o seu ar leve e sereno de quem aprendeu a aceitar a vida como ela é, embora nunca se conformando ou baixando os braços perante as adversidades, fez-me olhar para dentro de mim e, num momento de epifania, dar razão às palavras que me haviam sido ditas horas antes. Às vezes custa admitir que estamos errados, mas tem mesmo de ser. A vida é feita de altos e baixos, coisas boas e más, e, embora soando a cliché, a verdade é que temos de a viver em pleno, sabendo dizer que sim e que não, pedir desculpa e saber perdoar, abraçar, beijar e sorrir aos que amamos e nos amam, que são importantes para nós e para quem somos importantes. Só assim podemos viver em pleno e ter uma verdadeira possibilidade de ser feliz.

Sophia viveu e, na morte, continuará viva nos corações de todos os que a amaram, a admiraram e se apaixonaram pela sua escrita. Sophia vai para o Panteão Nacional de forma merecida. Um dia, quando chegar a minha hora, espero continuar a viver no coração daqueles que fizeram de mim a pessoa que sou e serei!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *