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Olho Clínico

Congressos

Por Sara Teotónio Dinis

Estou a partir de hoje num congresso europeu de Medicina Geral e Familiar. Considero que este congresso tem alguma importância, e julgo que o programa científico está bem conseguido. A inscrição custou trezentos euros; e paguei-os eu.

Alguns dos meus colegas optaram por não ir ao congresso, pelo facto de não terem conseguido inscrição paga pela indústria farmacêutica e por acharem que os trezentos euros eram uma quantia avultada para um só evento de três dias.

Poderá não ser do conhecimento geral que a indústria farmacêutica tem este hábito — o de nos pagar inscrições para congressos — mas este é um gesto muito frequente. Eu própria já beneficiei dele no início deste ano. As várias companhias dispõem de verbas anuais destinadas só a este propósito, apostando assim na nossa formação e usando-a como veículo de promoção dos seus produtos.

Somos obrigados por lei a dar conhecimento, através duma plataforma virtual criada para o efeito, destas «ajudas» que vamos recebendo.

Entre a classe médica, há alguma polémica a respeito deste assunto… Regra geral, (quase) ninguém recusa uma inscrição num bom congresso, mas, enquanto uns aceitam sem qualquer remorso e até com bastante alegria, outros aceitam com o sentimento de «venda» — como se se recebesse um chupa-chupa com promessa de ajuste de contas no final do ano.

A considerar na reflexão deste assunto está o facto de que os nossos serviços (excepto talvez algumas USF modelo B) não dispõem de verbas para nos pagar a inscrição nos congressos, e o de que a nossa profissão exige a frequência de congressos e jornadas e cursos para a contínua actualização daquilo que é a vastidão da Medicina!

Aqui, como em qualquer ocasião de relação social na nossa vida, cada um cumpre o seu papel e ninguém é obrigado a nada… Os delegados de informação médica, ou melhor, delegados de propaganda médica, fazem o que o nome indica. É esse o seu trabalho, e nada contra. Até ao dia em que também se dão a ares de detective e, não sei muito bem como, conseguem saber junto das farmácias quantos «Pilinturons» e «Tritofens» é que o médico X prescreveu no último mês… e depois vão ter com o médico X ao centro de saúde para tentar perceber «o que é que se está a passar»… Aqui, já o caso muda de figura.

O que se está a passar é a Medicina, senhor delegado, e a Medicina é o médico que a exerce. Diriam alguns colegas meus que esta divisão não está salvaguardada a partir do momento em que eu aceito uma inscrição da propaganda médica… Eu digo que está, porque não vou permitir que algum dia um delegado venha com o caderninho da farmácia pedir-me contas. O acto da prescrição é nosso, e a integridade com que o praticamos só depende de nós.

2 comentários a “Congressos”

Aquele congresso onde o Secretário de Estado convidou todos a virem trabalhar para Portugal, prometendo-lhes que não ganhavam muito mas sempre era mais do que recebe o secretário de Estado?…

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