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A finança nunca se regulou sozinha

Por Pierre-Cyrille Hautcoeur (Le Monde, 30.IV.2012) [a]

Cerca de metade dos eleitores, na primeira volta das últimas eleições presidenciais, pôs em causa os dois principais partidos de governo, por causa do seu papel no processo de globalização, nomeadamente de ordem financeira.

Por que é que a globalização e o mundo financeiro, considerados por muitos economistas como úteis para o desenvolvimento, geram tanta hostilidade num eleitorado tão amplo quanto diverso?

A globalização beneficia muita gente, mas também faz vítimas — todos aqueles cuja actividade é deslocalizada ou pode vir a sê-lo e que deve fazer grandes esforços para manter o seu nível de vida. Se, na teoria económica, o ganho dos primeiros é mais do que suficiente para compensar as perdas dos outros, na prática tal redistribuição não ocorreu.

Nos últimos trinta anos, em todos os países europeus e especialmente em França, as elites inseridas na globalização e que dela beneficiam não viram os seus impostos aumentar. Pior: a globalização financeira (e liberalização que a condiciona) permite a essas elites esconder os seus lucros de formas inimagináveis ​​para comuns trabalhadores por conta de outrém, de quem nem um euro de rendimento escapa do olho do fisco.

Os profissionais da área financeira, que organizam o movimento internacional dos capitais, são os principais beneficiários da globalização, e os principais responsáveis pelos abusos que daí resultam. À custa dos seus consideráveis​​ lucros, eles corrompem ou convencem políticos tanto de direita como de esquerda, jornalistas e economistas mercenários. Mesmo quando apanhados em falso, eles recebem protecção, ou exploram as lacunas na lei ou a complacência dalguns tribunais.

Esta situação não é assim tão nova: as décadas de 1880 e 1930 testemunharam a ascensão duma opinião pública nacionalista, hostil à globalização e à finança parisiense, nostálgica duma economia passada e à procura de um salvador.

A falência do Canal do Panamá

Na década de 1880, quando a conjuntura económica estavam difícil, uma série de crises financeiras e de escândalos pôs em xeque os republicanos, muitas vezes próximos dos círculos liberais de negócios. A esquerda liberal foi então associada à falência do Canal do Panamá, que arruinou em 1888 centenas de milhares de pessoas, ao resgate questionável, em 1889, do Comptoir d’Escompte — um grande banco que embarcou numa operação especulativa internacional — ou pela falência em 1882 da Union Générale — um banco católico conservador, que supostamente matou a finança protestante e judaica.

É esta finança «cosmopolita» que o jornalista Déroulède Paulo (1846-1914) denunciou na sua escrita, tal como o General Boulanger (1837-1891), durante sua tentativa de golpe de Estado em 1889.

É a mesma finança que o panfletário Edouard Drumont (1844-1917) acusa de anti-semitismo, estigmatizando aqueles que hoje chamamos bobos [b], os «sem Deus» que abriram a escola a todos, liberalizaram a imprensa, as associações e os sindicatos.

Para proteger a «França do terror», a chamada direita moderada, encarnada pelo ministro Jules Meline (1838-1925), aumenta os impostos alfandegários e reforma a bolsa de modo a evitar a especulação em 1898, trocando a certeza do amanhã pela manutenção das acentuadas desigualdades de rendimento.

É a esquerda que, em 1913, consegue, pela luta, a criação do imposto sobre o rendimento, o primeiro instrumento explícito de redistribuição a favor das vítimas do capitalismo globalizado.

Após a Grande Guerra, a turbulência monetária e financeira da globalização aumenta. Com a criação do Cartel des Gauches, o Banco de França — então privado — é acusado de estar refém de interesses financeiros e políticos. O Banco é suspeito, a partir de 1931, de salvar primeiro os bancos amigos e de contribuir para uma política de austeridade inadequada para salvar o franco e os aforradores.

Acresce a isto uma série de escândalos, das operações «à la Madoff» de Marthe Hanau (1886-1935) à especulação de Oustric ou de Stavisky (1886-1924), que gozam de protecção política à direita e à esquerda. Léon Daudet (1867-1942), o porta-voz da «Action Francaise», acusa indiscriminadamente o parlamentarismo e os políticos de estarem «podres».

A exigência de proteccionismo aumenta, mas são a nacionalização do Banco de França e a desvalorização do franco em 1936 que impulsionam a economia e recolocam o mundo financeiro ao serviço do interesse geral.

Se quisermos evitar hoje o sucesso crescente dos discursos revolucionários em ambos os extremos do espectro político, com o risco de violência civil que os acompanha, um novo presidente deve levar a França e a Europa no caminho duma verdadeira política de protecção dos aforradores, de vigilância sistemática das transacções financeiras, e de limitação dos gigantes bancários e dos paraísos fiscais.

Tal política deve ser exemplar e dar meios ao poder judicial para punir os excessos da finança e da corrupção dos políticos. Por fim, deve garantir que os beneficiários da globalização, que, em geral, seriam incapazes de ganhar no exterior como em França, paguem uma contribuição justa para o bem comum, o que também é deles.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Burgueses boémios (n. do T.).

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