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Olho Clínico

Greve dos médicos, 8 e 9 de Julho

Por Sara Teotónio Dinis

Hoje e amanhã estamos a fazer greve.

Por tudo o que já aqui foi sendo referido pelo Gustavo [1] e por mim e já não é novidade. E porque ainda nos resta o civismo e este direito — este, pelo menos, ainda não nos tiraram.

Perguntam-me:

— Vai valer-te de alguma coisa?

Provavelmente e na melhor das hipóteses, só vai abrandar uma vontade que é transversal a todo e qualquer ministro que ali se sente para nos «governar». Mas é a velha questão: se nada fizermos, então é que de certeza não vamos a lado algum — ou melhor, vamos, mas cada vez pior e sem saber muito bem para onde.

O que é que eu quero? Quero que o Serviço Nacional de Saúde continue a existir. A ter os recursos necessários. A ter qualidade. A estar disponível para todos. Quero que os meus colegas continuem a orgulhar-se dele e a entregar-lhe e aos seus utentes o seu suor, com vontade e alegria no trabalho.

Mas, para isto, é preciso não deixar prosseguir os decretos e as portarias que o Ministério debita levianamente e sem ponderação [2] e cujo objectivo último é destruir o SNS para entregar o bolo todo aos grandes grupos privados — para sugar o tutano aos cidadãos portugueses (mais uma vez).

Basta! Chega disto! Não quero pactuar com este esquema ganancioso, discriminador e doentio!  Temos um dos melhores sistemas de saúde do mundo, há países que querem poder copiá-lo e lutam para consegui-lo! Por que haveremos de abrir mão dele?!

Basta! Temos de impedir isto! Mas também temos de ter a coragem de mudar algumas atitudes e comportamentos que nos ficam mal — a promiscuidade entre o público e o privado, os esquemas e as fraudes com a indústria farmacêutica!

Basta! Temos de nos guiar pela ética. Temos de ser claros e transparentes quanto ao que fazemos. Temos de escolher o sistema em que queremos trabalhar e ser bons nele!

Lutamos também por nós, não o nego. Luto pela qualidade do meu internato, pela qualidade assistencial dos serviços onde estou e onde vou formar-me, pela progressão na carreira, pela continuidade formativa após a especialidade, pela progressão salarial…

O que temos é bom, mas pode ser ainda melhor! Quero não cobrar taxas moderadoras! Quero passar exames complementares de diagnóstico com a certeza de que os doentes vão fazê-los, pois não vão ser-lhes cobrados. Quero saber que os doentes não têm de pagar a medicação crónica e por isso nunca vão deixar de fazê-la. Isto acontece na Holanda, não é uma utopia!

Basta! Quero mais e melhor! E hoje e amanhã estou em greve por isso.

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