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Consultório da Ria

O rim

Por Carlos Lima

O rim tem o formato dum feijão, tem uma textura avermelhada e existe em número par. Situa-se na cavidade abdominal, na parte superior, e um de cada lado da coluna vertebral. Mede cerca de dez centímetros de comprimento, cinco de largura e 2,5 cm de espessura. É coberto por uma cápsula fibrosa, de protecção contra traumatismos e infecções, e está almofadado por uma camada de tecido adiposo (gordura).

O rim pode ser dividido em três partes: o córtex, a medula e a pelve. É irrigado pelas artérias renais, que saem directamente da artéria aorta, e a drenagem é feita pelas veias renais. Chegam por minuto, com a pessoa em repouso, 1,2 litros de sangue, ou seja, 20% de cada batimento cardíaco.

A unidade funcional do rim é o nefrónio; tem a propriedade de, através da sua membrana, filtrar algumas substâncias, impedindo outras de passar. A sua importância é evidenciada pela especialidade da Medicina que estuda e trata o rim, que é chamada de Nefrologia. O nefrónio pode ser dividido em duas partes: corpúsculo renal e túbulo renal. Os corpúsculos situam-se no córtex renal e possuem duas partes: o glomérulo e a cápsula de Bowman. O glomérulo é uma rede densa de pequenos vasos arteriais em novelo, com a artéria aferente a fazer entrar o sangue total e a eferente a fazer sair o sangue com as substâncias não filtradas. Sendo a artéria eferente mais fina que a aferente, isto provoca aumento de pressão nos capilares do glomérulo, levando ao extravasamento e criando na parte de fora dos vasos sanguíneos o filtrado. Como o glomérulo está envolvido pela cápsula de Bowman, é esta que faz a recolha do filtrado e o envia para o túbulo renal. O túbulo renal, na parte inicial, é muito contorcido e envolvido por vasos sanguíneos, para aumentar a área das trocas e gerar e iniciar o processo de equilíbrio entre o filtrado e o sangue. A ansa de Henle é uma parte do túbulo que mergulha do córtex renal à medula e volta ao córtex, unindo o túbulo contornado proximal e o túbulo contornado distal. Este três tipos de túbulos renais estabelecem três tipos de membrana, com permeabilidades diferentes, permitindo assim a reabsorção de certas substâncias em diversas fases, nalgumas situações por equilíbrio de pressões dentro e fora dos túbulos e dos vasos sanguíneos, noutras vezes por mecanismos activos, exclusivos do rim.

O rim desempenha três funções principais: controlo da concentração e do volume de sangue; regulação do pH (acidez do sangue) e remoção de impurezas tóxicas, produzidas pelo metabolismo celular. As substâncias filtradas e não reabsorvidas são concentradas e eliminadas para o exterior pela urina.

O sangue é filtrado na sua totalidade sessenta vezes por dia e a formação da urina envolve três processos: filtração glomerular (glomérulo e cápsula de Bowman), reabsorção tubular (túbulo contornado proximal, ansa de Henle e túbulo contornado distal), e secreção tubular (tubo colector). Para se observar a importância da filtração e da reabsorção, podemos dizer que em 24h são produzidos aproximadamente 180 litros de filtrado, e que apenas se elimina de um litro e meio de urina; tudo devido a uma rede extensa de capilares, de túbulos e de membranas altamente selectivas, que formam o nefrónio.

A quantidade de filtrado é controlada por três mecanismos: auto-regulação renal, regulação hormonal e regulação nervosa. A auto-regulação renal reside na capacidade que o rim tem de manter a pressão sanguínea estável, independentemente da pressão arterial sistémica, ou seja, diferente do resto do corpo. Este mecanismo é afectado pela persistência de hipertensão arterial sistémica, podendo conduzir a insuficiência renal e posterior hemodiálise. A perda súbita de sangue, por hemorragia, faz com que chegue pouco sangue ao rim e este não consegue elevar a tensão arterial interna, de forma a conseguir produzir urina. Em emergência médica, a produção de urina torna-se assim um importante sinal de estabilidade no doente hemorrágico.

Na regulação hormonal, existem duas hormonas que assumem particular importância: a angiotensina (regula a tensão nos vasos sanguíneos) e o peptídeo natriurético auricular, libertado pelas aurículas cardíacas, quando a pressão sanguínea é muito elevada, devido ao aumento do volume de sangue.

Quanto à regulação nervosa, quando há algo que ameace a vida, ou no desenvolvimento de actividade física muito intensa, o corpo concentra-se no essencial e isso contribui para que o rim diminua a formação ou aumente a reabsorção de filtrado.

A eliminação de substâncias tóxicas, como o potássio, o hidrogénio (tem a ver com o pH da urina), o amónio, a creatinina e a ureia, é uma das funções essenciais do rim. Com a evolução da Medicina, existem muitos medicamentos que têm a sua via de eliminação preferencial no rim, pelo que a existência de problemas renais deve ser sempre comunicada ao médico na hora da prescrição de medicamentos.

A pielonefrite é uma infecção do rim. A insuficiência renal pode levar à hemodialise, que mais não é do que a remoção, através duma membrana externa, das substâncias que o rim filtra naturalmente; tem de ser feita em menos tempo e com riscos maiores.

Agora, de cada vez que correr à casa de banho, lembre-se da sorte que tem do seu rim estar a funcionar, mas não se distraia.

Saúde!

22 comentários a “O rim”

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