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O Fundamentalista Científico

Uma visão da Psicologia Evolutiva

Por Satoshi Kanazawa [a]

Eis uma visão diferente sobre a questão muito oportuna (e intemporal) que Peter D. Kramer coloca e responde no seu último artigo: «Why would a politician endanger everything — family, career, and reputation — for naughty, illicit sexual excitement?» [Por que um político arriscaria tudo — família, carreira e reputação — pela excitação do sexo travesso e ilícito?].

Segue-se um excerto do nosso livro: «Why Beautiful People Have More Daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [2] (pp. 142-144):

Pergunta: Por que os políticos arriscam tudo por um caso (mas apenas os do sexo masculino)?

Na manhã de Quarta-feira, 21 de Janeiro de 1998, os americanos acordaram com uma notícia de última hora. O Washington Post, um dos principais jornais do país, noticiava a alegação de que o presidente Clinton teria um caso com uma estagiária da Casa Branca de 24 anos de idade. Naquela manhã de Janeiro, à medida que a história se desenrolava na frente duma nação atordoada, a América e o resto do mundo ainda não tinham noção do que estava para vir: um escândalo político que durou um ano e consumiu o país (e o mundo) e culminou em 19 de Dezembro com Clinton a ser impugnado pela Câmara dos Representantes — o primeiro presidente eleito de sempre a ser impugnado na história americana.

Enquanto toda a nação estava em choque, uma mulher no Michigão acordou com a notícia na mesma manhã de 21 de Janeiro de 1998, tomou um gole de café enquanto assistia ao desenrolar dos acontecimentos na televisão, sorriu para si mesma e disse:

— Eu bem avisei.

Essa mulher é a historiadora darwinista Laura L. Betzig. Ao longo de mais de vinte anos, Betzig tem escrito sobre o comportamento de acasalamento e o sucesso reprodutivo de políticos e doutros líderes da história. Ela destaca que, embora os homens poderosos, ao longo da história ocidental, tenham casado monogamicamente (tinham apenas uma esposa de cada vez), eles sempre copularam de forma polígama (tinham amantes, concubinas e escravas). Muitos tinham haréns, compostos por centenas ou até milhares de virgens. Com as suas mulheres, eles produziram herdeiros legítimos; com as outras, eles produziram bastardos (termo de Betzig). Os genes e a aptidão não fazem distinção entre as duas categorias de crianças. Enquanto os herdeiros legítimos, ao contrário dos bastardos, herdavam o poder e o estatuto dos seus pais e, muitas vezes, acabavam por ter os seus próprios haréns, os homens poderosos, por vezes, investidiam nos seus bastardos também.

Por consequência, os homens poderosos de estatuto elevado, ao longo de toda a história da humanidade, alcançaram elevado sucesso reprodutivo, deixando um grande número de filhos (legítimos ou não), enquanto inúmeros homens pobres do campo morreram solteiros e sem filhos. Mulei Ismael, o Sanguinário, que encontrámos no Capítulo 2, destaca-se quantitativamente, tendo deixado mais descendentes do que qualquer outro na História, mas não era, de forma nenhuma, qualitativamente diferente doutros homens poderosos, como Bill Clinton.

Por que não?

Do ponto de vista histórico darwinista de Betzig, a pergunta que muitos norte-americanos e pessoas por todo o mundo puseram em 1998 foi:

— Por que diabos o homem mais poderoso do mundo arrisca o seu emprego por um caso com uma mulher jovem?

É uma pergunta tola. A resposta de Betzig seria:

— Por que não?

Recordemos do Capítulo 1 («What is evolutionary psychology?» [O que é a Psicologia Evolutiva?]) que o motivo subjacente a todo o comportamento humano é a reprodução; o sucesso reprodutivo é o propósito de toda a existência biológica, incluindo a dos seres humanos. Os humanos fazem muito do que fazem, directa ou indirectamente, conscientemente ou (geralmente) sem saber, para obter sucesso reprodutivo. Atingir um cargo político não é excepção. Nesta perspectiva, os homens esforçam-se por alcançar o poder político (como Bill Clinton fez toda a sua vida, desde o fatídico encontro com John F. Kennedy na Casa Branca, em 1963), consciente ou inconscientemente, a fim de obter acesso reprodutivo a um número maior de mulheres. Por outras palavras, o acesso reprodutivo às mulheres é o objectivo, um cargo político é apenas um meio. Perguntar por que o presidente dos Estados Unidos teria um encontro sexual com uma mulher jovem é como perguntar por que alguém que trabalhou muito para ganhar uma grande soma de dinheiro depois o gasta. O propósito de ganhar dinheiro é gastá-lo. O propósito de se tornar presidente (ou qualquer outra coisa que os homens fazem) é ter um maior número de mulheres com quem acasalar.

O que distingue Bill Clinton não é ele ter tido casos extraconjugais durante o seu mandato; outros têm, e muitos mais terão no futuro. Seria um mistério darwiniano se não o fizessem. O que distingue Clinton dos restantes é que ele foi apanhado e o seu caso tornou-se um escândalo político espetacular. O que os genes de Clinton não sabiam é que ele não podia ter relações sexuais com um grande número de mulheres e não conseguiria escapar, quando a maioria de seus antecessores, como todos os reis, imperadores, sultões, e presidentes democraticamente eleitos, cujas vidas reprodutivas trabalho de Betzig descreve em grande detalhe, conseguiram. Os genes de Clinton não sabiam da existência da tecnologia de identificação de ADN, que acabou por expor o caso e o forçou a admiti-lo publicamente, porque tal coisa não existia no ambiente ancestral.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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