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Consultório da Ria

Apologia da Contabilidade

Por Hugo Pinto de Abreu

Sejam muito bem-vindos a este «Consultório…» [1], às Quintas-feiras dedicado a questões económicas.

Na passada semana [2], falávamos de ciências e de disciplinas que tendemos a desvalorizar e que encaramos como um peso, como não tendo real valor. Um exemplo disto mesmo, entre nós, é a Contabilidade.

Antes de entrarmos nesta discussão, permitam-me fazer outra nota: procurarei, sempre e tanto quanto possível, fazer um tratamento, uma abordagem técnica às questões que aqui discutirmos. Não sou, nem pretendo ser, um comentador político.

Voltemos então à Contabilidade! A Contabilidade, em sentido lato, é tão antiga como a civilização, havendo registos deste tipo na Mesopotâmia, na Pérsia, no Egipto e na Babilónia. O Império Romano dispunha duma eficiente máquina administrativa. A Contabilidade moderna nasceu pela mão de Luca Pacioli, um frade franciscano, na Itália medieval [3].

Infelizmente, parece existir, em Portugal — mas não é, infelizmente, um problema só português — um profundo e arraigado desprezo por esta disciplina.  Vê-se a contabilidade como um peso inoportuno, incómodo, ao qual é preciso acomodar-se porque «tem de ser».

Parece-me, de facto, problemático, que se veja a contabilidade como algo que o Estado impõe e que aparece na vida das empresas em consequência e em função dessa imposição. É certo que é a contabilidade que normalmente serve de base à tributação das sociedades, dado que, normalmente, é com base na contabilidade, com uma série de ajustamentos, que se determina o lucro da sociedade para efeitos fiscais, e, portanto, o montante de imposto a pagar.

Mas a Contabilidade é, sobretudo e antes de mais, um instrumento de gestão. O objectivo da Contabilidade é dar uma imagem verdadeira e apropriada da situação patrimonial duma entidade ou duma empresa. Se for elaborada com verdade e com rigor, se for elaborada e analisada por quem conheça as normas contabilísticas e, não menos importante, por quem tenha sensibilidade para entender o negócio, então e só então será um poderosíssimo instrumento de gestão, que pode permitir ter uma visão clara sobre o passado, o presente e o futuro duma empresa.

Por isso, penso ser hora de todos nós e, em particular, os empresários e os gestores, vermos o relato financeiro, a contabilidade, não como uma obrigação imposta por entidades externas — que habitualmente são o Estado, para a cobrança de impostos, e os bancos, para a concessão de financiamentos — mas como um instrumento básico, repito, básico, da gestão.

Não pretendo com isto dizer que os instrumentos proporcionados pelo relato financeiro proporcionem sempre e por si só uma visão completa do negócio, que permita avaliar e definir estratégias; mas é, ou deveria ser, um bom começo para uma gestão profissional. O desprezo pela Contabilidade é sinal inequívoco de gestão a olho. Ou pior…

Para a semana, iremos falar de impostos e de off-shores. Até lá!

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