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Olho Clínico

Somos animais

Por Jorge Mota [a]

Desde os primórdios que somos animais na sua mais pura essência. Ficamos cingidos a instintos básicos de sobrevivência quando somos ameaçados e perdemos rapidamente a humanidade. Quando empurrados a um canto, rapidamente regredimos e voltamos à mais pura essência do ser humano…

Consideramos que evoluímos, que esta história da evolução é algo aceitável e normal. Que o progresso é natural e tende a acontecer. Posso concordar até certo nível, visto que somos a espécie que domina a cadeia alimentar, não pelas nossas capacidades físicas, mas sim pelas nossas capacidades intelectuais, que nos levaram a superar todos os predadores naturais que tínhamos no passado. Nesta arte de morte, nós, seres humanos, excedemos tudo; somos brilhantes, no que respeita a terminar vidas.

O ser humano foi criado de forma a correr 40 km por dia, a caçar tigres dentes de sabre e a lutar com as suas próprias mãos pela sobrevivência. Este suposto progresso escondeu essa nossa natureza violenta, mas rapidamente retornamos ao que éramos, demonstrando que, nos tempos de crise, em que a sobrevivência está ameaçada, voltamo-nos para o animal e esperamos que este assuma o controlo e nos leve à sobrevivência.

O que me levou a escrever este texto foram certos acontecimentos mediáticos recentes, nomeadamente a escalada da crise na Faixa de Gaza, com o conflito israelo-árabe, bem como a tensão que se faz sentir em zonas como a Crimeia. Somos então bombardeados com imagens vindas da comunicação social, adulteradas ou não, tendenciosas ou não, mas o facto é que são reais. Isto leva-nos a pensar: se fossemos nós, qual seria a nossa reacção? Se fosse em Lisboa, ou no Porto, como nos comportaríamos? Deixaríamos que outros resolvessem? Ou será que abandonaríamos a nossa humanidade, nem que fosse momentaneamente, para assegurar a nossa sobrevivência e a dos nossos?

Gosto de pensar que somos racionais e que trocamos conscientemente parte das nossas liberdades, de forma a viver em sociedade. Abdicamos assim de parte daquilo que queremos e somos realmente, optamos por seguir regras impostas pela própria convivência em sociedade, de modo a sentirmos segurança e a evitar conflitos. No entanto, este pensamento não é estanque, encontrando-me eu, cada vez com mais frequência, a pensar no que seria se esta sociedade fosse convertida à anarquia e ao caos. A sobrevivência dos mais aptos, normalmente. Este cenário algo dantesco não vem por si só toldar a visão que existe nos países ocidentais; no entanto, observe o leitor e pense, pois não foi assim há tanto tempo que também «nós», ocidentais, estivemos em condições similares de destruição, de guerra e de todo o tipo de crimes naturais da condição humana mais primitiva.

E o leitor? Quando confrontado com circunstância extremas, será que deixaria o animal interior tomar conta, em prol da sobrevivência? Ou continuaria a utilizar o seu julgamento racional?


Nota:

a: A Sara abre hoje a sua coluna à colaboração esporádica do Jorge (n. do E.).

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