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Cabem muitas palavras em quatro linhas

Por Gustavo Martins-Coelho

Cabem muitas palavras em quatro linhas. Há tantas formas diferentes de dizer a mesma coisa! Há tantas coisas diferentes que podem dizer-se da mesma forma! É impossível comunicar.

O Saramago gostava de ler os críticos literários, para perceber o que tinha querido dizer nos seus livros. Eu, como não percebo nada de crítica literária, estou condenado a não saber o que quero dizer. Mas a culpa não é minha. Uma vez, deparei-me com a seguinte frase:

A vertigem duma obra em transe da alteração do paradigma conceptual e expressivo, da mudança da primeira voz fictícia, o próprio título tendo estado à beira de não ser o mesmo, avulta claramente no relance dum plano editorial da obra. [a]

Importa-se de repetir?

Se estivesse escrito em Alemão, não seria mais incompreensível. Mas, se estivesse escrito em Alemão, sobrariam cinco linhas e teria um verbo partido ao meio.

Du weißt, dass Deutsch eine schwere Sprache ist, wann du fünf Textzeilen zwischen dem Subjekt und dem Verb findest! Oder wann du noch wieder fünf Textzeilen zwischen Verb und Vorsilbe auch findest.

Eu já decidi várias vezes. Mas ainda não decidi começar a cumprir a decisão. A decisão é um processo altamente burocrático, que envolve várias etapas decisivas. Nem sempre todas são ultrapassadas e, então, a decisão perde-se nos meandros burocráticos da vontade. Como os processos nos tribunais.

Portanto o processo seguiu o seu curso com aquele ritmo vivo que é a glória dos nossos tribunais. Nesse mesmo dia o requerimento foi rubricado, numerado, registado e homologado, e foi depositado num armário onde ficou a dormir […] durante um, dois, três anos. […] Já lá vão dez anos, e desde essa data todos os dias o Tribunal o informa que a sentença será dada no dia seguinte! [b]

É bom saber que a Justiça portuguesa está ao nível do que de melhor se fazia na Rússia do século XIX.


Notas:

a: Teresa Sobral Cunha, «Introdução» a «O livro do desassossego», de Vicente Guedes e Bernardo Soares [1].

b: Nicolau Gogol, «A cidade do sossego» [2].

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