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A crise na Europa começou com um enorme resgate do BCE à Alemanha

Por Joe Weisenthal (Business Insider, 19.VI.2012) [a]

Uma grande nota de Richard Koo, economista-chefe do Nomura Research Institute [1], olhando para o chamado «problema de competitividade» dos países do Sul da Europa.

Em vez dum problema endémicos desses países, Koo diz que o que aconteceu é que, depois da bolha tecnológica de 2000 rebentar (uma bolha em que a Alemanha participou activamente), o BCE aplicou uma política monetária excepcionalmente expansiva, para estimular a economia, de modo a evitar que a Alemanha tivesse de estimular a sua economia através da política fiscal.

Esta estratégia não ajudou muito a Alemanha internamente (que atravessava uma «balance sheet recession»), mas contribuiu para expandir as bolhas da periferia, fazendo aumentar as importações de produtos alemães por parte desses países, colocando, assim, a periferia em dívida e impulsionando o sector exportador da Alemanha, resgatando-o do afundamento pós-bolha tecnológica.

Diz Koo:

Os países do Sul da Europa, que não participaram da bolha tecnológica, apresentavam naquele momento economias fortes e robusta procura de financiamento pelo sector privado. Portanto, política do BCE de juro a 2% levou a um crescimento acentuado da oferta de moeda, que por sua vez alimentou a expansão económica e bolhas imobiliárias.

Os salários e os preços aumentaram deixando esses países menos competitivos em relação à Alemanha. Em suma, a política de juros ultra-baixos do BCE teve pouco impacto na Alemanha, que atravessava uma balance sheet recession, mas foi demasiado para outros países da zona euro, resultando em inflações muito divergentes.

À medida que a Alemanha se tornou cada vez mais competitiva em relação às fortes economias do Sul da Europa, as exportações cresceram de forma acentuada e tiraram o país da recessão. O superavit comercial da Alemanha rapidamente ultrapassou os do Japão e da China, para se tornar o maior do mundo, com grande parte do crescimento impulsionado pelas exportações para outros mercados europeus.

O BCE, e não o Sul da Europa, é o responsável pelo diferencial de competitividade.

Em 2005, eu disse um alto funcionário do BCE que era injusto forçar os outros países a resgatar a Alemanha, impulsionando as suas economias com a política monetária que estava a ser posta em prática, sem exigir da Alemanha a aplicação dum estímulo fiscal, quando fora a Alemanha que se enredara tão profundamente na bolha tecnológica. O funcionário respondeu que isso é o que significa uma moeda única: dado que a Alemanha não poderia beneficiar dum regime de excepção na concessão dum estímulo fiscal, a única opção era estimular toda a região com a política monetária.

Por outras palavras, não teria havido necessidade da política levada a cabo pelo BCE — e, portanto, nenhuma razão para a diferença de competitividade com o resto da zona euro se ter alargado até ao nível actual — se a Alemanha tivesse aplicado um estímulo fiscal para lidar com a sua balance sheet recession.

Os signatários do Tratado de Maastricht não fizeram provisões para balance sheet recessions na elaboração do documento; e o actual «problema de competitividade» é unicamente atribuível ao limite de 3% do Tratado sobre os défices orçamentais, que colocou exigências irreais sobre a política monetária do BCE durante este tipo de recessões. Os países do Sul da Europa não são os culpados.

Acertou em cheio.


Nota:

a: Este artigo foi adaptado do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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