Categorias
Olho Clínico

O que eu não posso dizer

Por Sara Teotónio Dinis

A grávida que fuma

Foi logo nos primeiros meses do ano que esta senhora apareceu na consulta, com a notícia de que estaria novamente grávida.

A primeira gravidez, que tinha ocorrido no ano anterior, resultou em aborto espontâneo por volta das quinze semanas. A investigação posterior identificou uma trombocitose idiopática, que poderia explicar o sucedido. A acrescer a esta situação hematológica pró-trombótica, a senhora em causa era fumadora e não tinha deixado de fumar quando soube que estava grávida. A junção destes dois factores aumentava a priori o risco subjacente à gravidez, ainda que a senhora na altura não soubesse que tinha trombocitose.

Portanto, a senhora estava novamente grávida e a ser consultada com maior frequência do que o habitual na maternidade (dada a história pregressa e os factores de risco). Obviamente que uma das nossas primeiras questões foi:

— E então, já deixou de fumar?

— Não. Nem estou a pensar nisso.

— Então… Mas porquê? Sabe o risco que corre, não sabe? Com certeza, já lhe foi explicado…

— Sim, já me explicaram tudo na maternidade, mas eu não consigo, dr.ª. Eu sei que ia ficar mais estressada por deixar de fumar do que já estou agora ao saber que esta gravidez é de risco…

— Mas, se deixasse de fumar, diminuiria o risco que já tem, devido à trombocitose… Lembre-se de que, continuando a fumar, aumenta o risco de morte fetal in utero, de malformações e de restrição de crescimento…

— Eu já sei disso tudo, mas é escusado tentar convencer-me, dr.ª. Eu não vou deixar de fumar.

Esta senhora deixou-me tão atónita que não consegui abrir a boca para acrescentar mais nada ao que a minha orientadora tinha acabado de dizer. Para quê? Só me ia enervar e intoxicar a relação que ela tem com a minha orientadora! Mas a questão foi para casa comigo; não conseguia simplesmente compreender…

Uns três meses depois, voltei a apanhá-la na consulta… Vinha com o relatório da ecografia do segundo trimestre — o perímetro abdominal da criatura estava abaixo do percentil cinco… e havia dias em que ela simplesmente não sentia o feto mexer (o que é um sinal altamente preocupante, nesta altura da gravidez). Ela perguntou-nos:

— Olhem, eu sei que eles lá na maternidade não me querem dizer muito para não me assustar…

Da outra vez, as coisas na primeira ecografia já não estavam bem, mas eles não me disseram… Por isso, digam lá a verdade, sejam frontais… Isso do perímetro abdominal baixinho é muito grave?

A minha orientadora respondeu:

— É uma situação que não queríamos que acontecesse… Não é o melhor cenário; e o que mais preocupa é a pouca actividade que refere…

Eu tive a ousadia de acrescentar, com muita cautela com as palavras empregues, que a situação que se verificava podia ser explicada pelo consumo do tabaco. A senhora não protestou, respondendo com um :

— Pois…

Eu também não acrescentei mais nada.

Ora… O que é que me apetecia dizer? Algo deste género:

— Olhe, minha senhora… Se a senhora voltar a sofrer um aborto espontâneo, a culpa é inteiramente sua. Não sei por que procura aconselhamento médico, se a única coisa que sabe fazer é ignorá-lo e enervar os profissionais de saúde, ao dizer que vai continuar a fumar e «ponto final». Ponto final? Ponto final?!? Vamos ver se, pela sua saúde e a dessa criança, o ponto final não vem muito antecipado… Pode ser que tanta estupidez e idiotice sejam bafejadas pela misericórdia divina, mas a desafiar o karma desta forma… não sei se vai muito longe!

A mãe que mentiu

Esta mãe é a personificação do estresse e do pânico, quando começa a falar dos seus dois filhos — o mais velho de onze, o mais novo de oito anos de idade.

O mais velho é introvertido e tem acompanhamento psicológico, por falta de auto-estima e por traços depressivos. O mais novo tem distúrbio de défice de atenção e hiperactividade, sendo também acompanhado por um psicólogo especialista. Consequentemente, ela é uma estressada. Na sua primeira consulta que eu presenciei, irrompeu em lágrimas e soluços, porque «já não sabia o que fazer aos filhos», já que, aparentemente, o acompanhamento que eles estariam a receber parecia «não ajudar nada» e ser um «completo desperdício de tempo e de dinheiro».

Numa das consultas subsequentes, num período pós-férias — que, segundo ela, foram muito boas e deram para relaxar — ela volta a queixar-se, desta feita do filho mais velho.

— Ai, dr.ª, eu não sei que lhe hei-de fazer… Ele é tão frágil! Não lhe posso dizer as coisas como digo ao outro, que ele fica magoado com muita facilidade e amua… Agora, está magoado comigo, desde há uns dias…

Perguntei porquê.

— Oh! dr.ª, ele anda num colégio privado… E ele sabia desde o início do ano que ia ter uma visita de estudo no final do ano lectivo! Estava todo entusiasmado e eu disse-lhe sempre que ele ia, caso se ele se esforçasse e trabalhasse durante o ano. E, de facto, ele portou-se muito bem e eu tinha claro para mim que ele ia. Mas, quando vieram os papéis para a visita de estudo… eu não tive outra alternativa senão recusar!

Voltei a perguntar porquê…

— Oh! dr.ª, onde é que já se viu crianças de dez e de onze anos obrigadas a estar mais de seis horas a viajar num autocarro? A viagem era até Évora, o que eu acho super longe! Ainda se não houvesse locais de interesse por aqui perto… Mas, quer-se dizer, Portugal está cheio de coisas para ver em todo o lado! Acho inadmissível! E depois claro, o preço! Dezassete euros?! Uma exorbitância! Deve estar tudo louco, se acham que eu vou autorizar tal coisa!

— E já disse isso ao seu filho? Foi por isso que ele ficou magoado consigo?

— Pois… Porque eu lhe tinha dito que ele ia e, afinal, agora não o deixo ir… Mas é pelo bem dele, percebe? Eu não acho que tenha o mínimo de lógica!

Eu remeti-me ao silêncio. Não podia contrariar aquela mãe, com mala de pele de marca e carregada de prata Pandora dos pés à cabeça. O que me apeteceu ter dito mas refreei…

— Oh! minha senhora, você acha que as visitas de estudo não são todas assim? E acha que, para as crianças, as viagens de autocarro são um frete?! Coisa mais divertida! Dezassete euros é caro? Acha mesmo?! Cada uma das contas de fantasia que tem penduradas em si custou, no mínimo, 22 euros… A senhora trabalha, o seu marido também e, pelo que já se avaliou aqui, não passam dificuldades… Queixa-se de que o seu filho é frágil e tem fraca auto-estima — pudera! Você passou o ano a prometer-lhe uma coisa tão simples, mas para ele com tanto significado, e agora nega-lha quase «porque
sim»; é óbvio que a criança cresce traumatizada! Você mentiu-lhe!


Não posso dizer estas coisas… Os médicos não têm o direito a dizer este tipo de coisas. Os utentes levam a mal e a relação médico-doente fragiliza-se. Mesmo que sejam ralhetes completamente justificáveis, mesmo que toda a classe médica tenha a mesma opinião… Não podemos e nada nos defende a partir do momento em que cruzamos aquela linha que separa a cortesia do suicídio social.

Mesmo que o ralhete até pudesse conduzir a uma wake-up call e aquela futura mãe deixasse de fumar e a criança nascesse bem e sem problemas… Mesmo que a mãe estressada fosse para casa pensar e até deixasse ir o filho à visita de estudo… Se eu lhes dissesse o que realmente achava das situações em questão, corria um risco muito grande e sério de ficar gravemente prejudicada para o resto da minha carreira profissional.

Mas desengane-se quem achar que, lá porque nós não podemos dizer as coisas que nos atravessam o pensamento a cru, não as pensamos a cru e não temos sentimentos relativamente ao que ouvimos e testemunhamos. A nossa relação com os doentes é moldada, em grande parte, pelos sentimentos que as várias atitudes dos utentes nos fazem sentir. Embora não possamos ultrapassar aquela linha, apesar de não podermos falar, nós somos pessoas — apesar de nos quererem continuar a reduzir a máquinas viciadas em dinheiro e em poder.

2 comentários a “O que eu não posso dizer”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *