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O Muro das Lamentações

Masculino, plural

Por Gustavo Martins-Coelho

Em Português, o plural é masculino. Não é machismo, é gramática. Se eu quiser usar um pronome para me referir aos homens e às mulheres presentes numa sala, digo «todos» e não «todas».

Eu, que vejo ideologias em todo o lado e até acho que as palavras e o uso que lhes damos não são indiferentes [1], nunca me atrevi a dizer que a gramática é política. Mas já o ouvi: ouvi que o facto da língua construir o universal como masculino não é neutro, nem indiferente — é um reforço desse mesmo elemento da cultura: o universal como masculino, branco, heterossexual, etc.

Ora bem… Quem tiver umas luzes de Alemão, por exemplo, saberá que, por lá, o plural (salvo declinações estranhas) é feminino. Estaremos perante sexismo feminista na gramática alemã? Não me parece. A sociedade alemã ainda é patriarcal, pelo que o feminino universal não pode ser, sob nenhuma circunstância, entendido como um reforço de poder de género… Mas, sociologias à parte, creio existir aqui uma contradição, por parte dos defensores do papel da língua no alcance da igualdade de género: por que é que um plural masculino reforça a desigualdade de género e um plural feminino representa o combate a essa desigualdade, quando o que faz é criar desigualdade de sentido oposto? Até posso pôr a hipótese de que o neutro feminino alemão não seja sexista tout court, por estar aplicado a uma sociedade patriarcal — embora reforce uma diferença de classe, vai contra a corrente classista principal, pelo que não reforça o privilégio hegemónico (do masculino). Mas é indiscutível que sustentará a existência de classes e a diferença entre estas; e, a este nível, é indistinto do uso do masculino em Portugal.

Ou, então, é simplesmente uma não questão! Pegando no exemplo alemão e aplicando-o ao contexto português: será que, se o feminino fosse usado como plural neutro desde a noite dos tempos, como sucede na Alemanha, haveria alguém a reagir, reafirmando-se como homem e, mais do que isso, como heterossexual? Será que alguém pararia um momento que fosse para pensar no assunto e para iniciar uma reacção contra o neutro feminino?

Duvido — além de que essa questão não muda a inicial: quando eu digo «todos», eu estou preocupado em falar Português correcto, não em vincar a superioridade do sexo masculino sobre o sexo feminino. Aliás, usar o feminino como plural, ou criar um plural neutro, não é uma questão de opção, como muitos ideólogos da sexologia gramatical pretendem — é uma questão de correcção — ou da falta dela. Isto significa que, se eu escrever «todas» para me referir aos indivíduos presentes num determinado local e houver um homem a corrigir-me para «todos», não é sinal de que essa pessoa tenha de reafirmar o seu género ou a sua opção sexual — é somente sinal de que essa pessoa sabe gramática.

Parece que estou a defender que a língua é neutra e totalmente independente das pessoas que a falam — o que seria uma contradição, tendo em conta o que já escrevi sobre a língua na «Rua…» [2, 3, 4]. Mas a língua também não é política — porque, se o fosse,  seria passível de sofrer uma acção política. A língua não é neutra nem é política: é cultural! Ou seja, a língua reflecte a cultura dum povo; e, portanto, a forma de mudar o uso que o povo faz da sua língua é mudando a cultura desse povo. O contrário disso, mudar a língua — mudar o género do plural, ou rejeitar de todo o género aplicado a pessoas, para acabar com o machismo e a homofobia, significa começar a casa pelo telhado: pretender alterar a cultura dum povo através da modificação duma das suas manifestações. Essa ideia de modificar a língua, como forma de modelação cultural, foi exemplarmente descrita na distopia narrada em «1984» [5] e não resultaria, a fazer fé na imaginação do George Orwell, muito bem. Se não resultasse como o Orwell previu, a alternativa consistiria, na prática, num sistema em que seria possível manter todos os preconceitos e toda a discriminação existentes, sendo apenas vedado o direito a verbalizá-los. Este segundo cenário, além de ser contraproducente, acaba por configurar uma situação muito próxima da censura, dado que significa não poder verbalizar uma palavra, por ser entendido que o seu significado é machista e o machismo é uma — vá — «ideologia» indesejável. Era isto que a censura, que já acabou em Portugal há mais de trinta anos, fazia, nos seus tempos áureos…

As palavras têm o significado que nós lhes dermos. Creio que, com a excepção dalguns activistas, ninguém pára para pensar nas implicações políticas de dizer «todos» em vez de «todas». Tal preocupação linguística faz-me lembrar um livro que li há muitos anos, em que a personagem principal dizia a páginas tantas: «eu pedi uma asa, por ser a única parte do frango que não tem conotações sexuais» [6]. Mas, ei, era um livro bem humorado sobre a crise da adolescência, que me foi recomendado por uma grande amiga e me fez rir a bom rir!… Se assumirmos que «todos» é assexuado e tanto lá podem caber homens como mulheres, se o emissor e o receptor da mensagem a entenderem assim, se todos adoptarmos esse significado, esse é o significado da palavra. Não são todos os homens e algumas mulheres — são todos os seres humanos. Não é preciso mudar a ortografia, a declinação ou eliminar palavras. Neste ponto, eu arriscaria dizer que o machismo do plural masculino está nos feministas e não na Língua Portuguesa.

Creio que podemos e devemos usar todos os argumentos para limar as arestas da cultura dum povo, agindo sobre as suas estruturas sociais e políticas. Se formos bem sucedidos nesse desiderato, as suas manifestações culturais e linguísticas alterar-se-ão em consonância.

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