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Consultório da Ria

Eficientes até prova em contrário

Por Hugo Pinto de Abreu

No nosso primeiro «A Quinta da Economia» [1], procurei tentar responder às dúvidas ou argumentos daqueles que encaram a Economia, a ciência económica, como sendo uma ciência sem valor. Creio que, na realidade, poucas serão as pessoas que acreditam de forma consistente e veemente que a ciência económica não tem qualquer valor e é uma espécie de pseudo-ciência.

Todavia, se falarmos de questões mais específicas, como, por exemplo, os mercados financeiros, nesse caso arrisco dizer que uma boa parte das pessoas pensa que os mercados financeiros funcionam de forma totalmente arbitrária; que os mercados funcionam à mercê dos «especuladores», sendo que os «especuladores» seriam uma espécie de instrumentos duma tirania sem rosto. Portanto, a complexidade dos mercados financeiros seria uma espécie de véu, de ecrã de fumo, para impedir o cidadão comum de entender o funcionamento dum mecanismo que governa a sua vida de forma mais ou menos ditatorial e mais ou menos cruel.

Penso que isto se deve quer à complexidade intrínseca, à complexidade inerente dos mercados e dos produtos financeiros; quer — talvez sobretudo — à falta de formação dos cidadãos nestas matérias, associada a uma avalanche de informação que não sabem processar nem poderiam compreender. Penso que isto mesmo nos interpela: falar um pouco do funcionamento dos mercados bolsistas poderá ser um bom tema para um futuro «Consultório…» [2].

Hoje, fiquemo-nos por uma questão mais abstracta e mais genérica: serão os mercados financeiros eficientes, ou são um campo marcado pela irracionalidade?

Existe toda uma corrente de pensamento, chamada de Finança Comportamental [3], que coloca grande ênfase na demonstração da existência de anomalias e erros sistemáticos nos mercados, que fazem com que estes possam ser ineficientes, bem como em proporcionar explicações para estes fenómenos e estratégias para deles tirar proveito. Falamos de fenómenos como optimismo ou pessimismo desmesurados, comportamentos de manada, bolhas especulativas, etc.

Curiosamente, ao contrário do que o ouvinte poderia eventualmente intuir, esta corrente de pensamento é relativamente heterodoxa, isto é, não corresponde à visão dominante da ciência financeira.

De facto, a corrente ortodoxa defende a eficiência dos mercados, se forem considerados um número suficiente de factores. Neste trabalho, destaca-se o papel dos Professores Eugene Fama [4] e Kenneth French [5], que forneceram boa parte da formulação e defesa empírica para sustentar a eficiência dos mercados. E, se dúvidas houvesse sobre a respeitabilidade do seu contributo, Eugene Fama foi galardoado com o chamado «Nobel da Economia» em 2013.

Por tudo isto, apesar do meu grande fascínio pela escola das Finanças Comportamentais, é necessário reconhecer que não conseguiram, até hoje, demonstrar de forma sistemática a ineficiência dos mercados financeiros. Penso que uma atitude científica exige isso mesmo: não permitir que as nossas opiniões substituam o método científico.

Desta forma, até prova em contrário, podemos dizer: os mercados financeiros são eficientes. Se o ouvinte discordar, eis mais uma razão para incentivar os seus filhos a tornarem-se economistas, para um dia poderem refutar o actual «Prémio Nobel»: assim se faz ciência!

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