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O Muro das Lamentações

A pasta de dentes ou o fim das liberdades individuais

Por Gustavo Martins-Coelho

Uma das últimas vezes em que viajei de avião, foi para uma estadia de apenas três dias (contando com o dia das viagens de ida e de regresso), pelo que dispensei a bagagem do porão e levei apenas uma pequena mala de mão com o essencial, para poder efectuar a minha higiene e poder mudar de roupa.

Para efeito do primeiro objectivo, incluí, entre outras coisas, uma bisnaga de pasta de dentes, mas vim a descobrir, já no aeroporto, que me estava vedado lavar os dentes durante a viagem, pois a embalagem da pasta de dentes tinha, vá-se lá ver, 250 gramas e só é permitido, à luz da directiva europeia de segurança em aeroportos, transportar na bagagem de mão até cem mililitros. Dirá o leitor:

— Pois, agora é assim, habitue-se.

Ao que eu respondo:

— Eu era conhecedor de ambos os factos: de que só é permitido transportar cem mililitros e de que a pasta tinha 250 gramas.

E o leitor comenta:

— Então para que emalou a pasta de dentes, se sabia que não ia poder transportá-la no avião?

Espero que, quando chegar ao fim da minha narrativa, essa questão esteja devidamente esclarecida. Continuemos, então!

Chegado ao tapete rolante e à portinhola onde temos de nos despir para provar que somos cidadãos honestos e dignos de ser levados para dentro do pássaro de ferro, perguntaram-me se levava líquidos e computador e eu respondi que sim a ambas as questões, pelo que a menina que efectuava a segurança se ofereceu para tirar os frascos da mala enquanto eu tirava o computador da pasta, o que eu aceitei. Foi então que, chegada à embalagem do dentífrico, a menina me disse que não ia poder levá-la comigo porque tinha 250 gramas, e só podia levar até cem mililitros na bagagem de mão. Expliquei-lhe então que a lei é muito clara, referindo-se a volumes e não a pesos, e que a relação de um para um na conversão de mililitros em gramas apenas é verdadeira na água pura, pelo que o facto de a minha pasta de dentes ter 250 gramas de peso não significa (em teoria, pois ambos sabíamos que as coisas eram ligeiramente diferentes na prática) que exceda os cem mililitros de volume. A menina acompanhou o meu raciocínio, mas como a sua função é fazer o que lhe mandam sem questionar e alguém lá em cima a mandou não pactuar com prevaricadores armados em físicos teóricos, fui reenviado para a esquadra da polícia.

Ora, na esquadra da polícia, deparei-me com um agente entradote e barrigudo, que tinha mais de funcionário da repartição das finanças do que de força da autoridade. Quando lhe expus o meu problema, limitou-se a sacar dum papelinho, que se encontrava zelosamente guardado no bolso da farda e que continha as instruções para lidar com aquelas situações, e a ler-mo. Apesar do mesmo nada dizer a respeito de pastas de dentes ou de gramas, o agente apressou-se a acrescentar, no final da leitura, que a minha pasta de dentes estava absolutamente interdita a bordo. Como eu não me dei por satisfeito, o agente ligou para o sapientíssimo chefe, que confirmou as sagradas escrituras do papelinho regulamentar e interditou a minha pasta de dentes.

Nada mais me restando a fazer, voltei para a zona de controlo e resignei-me a ficar sem pasta de dentes. No entanto, foi então que o vento girou a meu favor: enquanto eu estivera na esquadra, a equipa de segurança mudara, pelo que ninguém conhecia o meu problema e a solução apresentou-se-me nítida: separei os frascos regulamentares para um lado e pasta de dentes para o outro e, quando me perguntaram se levava líquidos, entreguei tudo o que tinha, deixado a pasta de dentes bem guardada no fundo da mala, e fui para a porta de embarque.

Desta história ressaltam dois factos espantosos: o primeiro é que as apertadas malhas da segurança anti-terrorista da União Europeia são facilmente transpostas sem ser preciso passar meses a treinar num campo perdido algures no Afeganistão (e não se diga que foi por ser em Portugal, pois, na viagem de regresso, a mesma estratégia produziu os mesmos frutos, no aeroporto de Copenhaga); o segundo é que estamos a abdicar progressivamente de liberdades individuais que foram conquistadas ao longo, sobretudo, do século XX, em nome duma ameaça não muito bem especificada, sem que tal pareça preocupar-nos ou, o que é pior, sem sequer nos darmos conta dessa perda.

É principalmente este último facto que me preocupa. Os governos europeus, em nome da segurança dos seus cidadãos, estão a montar verdadeiros sistemas orwellianos de vigilância e estão a limitar as liberdades individuais a cada passo, sem que nós, os cidadãos que tanto querem proteger, nos sintamos mais seguros por causa disso. Pelo contrário, arrisco mesmo a dizer que os únicos efeitos obtidos por esta via são complicar a vida do cidadão comum, já que um terrorista que queira deitar um avião contra um prédio, pode facilmente fazê-lo por outros meios que não levando 101 mililitros dum líquido qualquer para o aeroporto. No outro prato da balança, pesa a invasão da privacidade a que somos todos sujeitos e uma certa histeria colectiva, que nos leva a olhar de lado todos os sujeitos morenos, de barba e turbante — a única vez em que fui seleccionado para um «rastreio aleatório» num aeroporto foi quando deixei crescer a barba — e a deitar as mãos à cabeça de cada vez que um estudante mais distraído se esquece da mochila da escola no metro.

Acho que é tempo de dizermos:

— Basta!

Acho que é tempo de confiarmos uns nos outros e de vivermos calmamente em paz. A alternativa é entrarmos por um caminho que nunca se sabe bem onde vai terminar. Afinal, os regimes autoritários começam sempre com a melhor das intenções.

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