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Transporte Humano

São Francisco: o início do mercado livre no estacionamento

Por Jarrett Walker [a]

O estereótipo americano que olha para São Francisco como de esquerda e socialista poderá precisar de revisão. São Francisco introduziu em 2010 a política de estacionamento mais liberal, de mercado livre, do país. E esta política torna mais fácil encontrar estacionamento.

A política americana convencional diz que o estacionamento deve ser disponibilizado a preços subsidiados, ou até mesmo de graça. Mas a verdade é que doze metros quadrados de terreno numa cidade densamente urbanizada têm um valor, e isso significa que têm uma renda justa. Qual é o valor da renda? Fácil. Pergunte ao mercado.

SF Park [2] faz variar o custo do estacionamento na rua de acordo com a hora do dia, com base na procura observada. De acordo com a sua página [3]:

Para ajudar a alcançar o nível adequado de disponibilidade de estacionamento, a SF Park ajusta periodicamente os preços dos parquímetros para cima e para baixo, em função da procura. A resposta dos preços à procura incentiva os condutores a estacionarem em zonas e em garagens pouco utilizadas, reduzindo a procura nas áreas sobreutilizadas. Com a SF Park, os dados em tempo real, juntamente com a resposta pronta dos preços à procura, são utilizados para reajustar os padrões de estacionamento na cidade, de forma que o estacionamento seja mais fácil de encontrar.

O objectivo é assegurar que há sempre um espaço de estacionamento disponível, de modo que as pessoas parem de conduzir em círculos infinitos, à procura de estacionamento. As pessoas podem verificar on-line o custo do estacionamento existente no local que pretendem visitar. Os parque cobertos terão uma oportunidade de superar as tarifas de estacionamento nas ruas, de modo que esses parques possam encher. Se o leitor já tiver conduzido em São Francisco, saberá que é difícil decidir usar um parque coberto, porque, bem, se contornar mais uma vez o quarteirão, poderá ter sorte. Com a SF Park, se contornar o quarteirão mais uma vez, provavelmente vai encontrar um lugar, mas vai custar mais do que no parque coberto, especialmente se se tratar dum estacionamento de longa duração. Assim, os condutores são mais propensos a ocupar os parque cobertos.

Se o programa falhar, o que eu espero que não, será em consequência de ser demasiado tímido. Inevitavelmente, haverá pressão para definir um preço máximo de estacionamento, momento em que os preços vão parar de subir, o que significa que o espaço vai encher-se, o que significa que toda a gente vai acabar, novamente, a dar mais uma volta ao quarteirão. Andrew Price, na Good [4], pergunta: o preço do estacionamento pode chegar a $10/hora? É concebível que sim, nalguns períodos de alta procura, que são quase certamente também períodos em que o transporte colectivo é abundante. Qual é o mal?

O plano inicial era ajustar mensalmente os preços do estacionamento num determinado momento do dia. Esta é uma estimativa grosseira da volatilidade real da procura, que reflecte muitos outros factores, para além da hora do dia e do dia da semana. Num sistema de mercado completamente livre, os preços do estacionamento mudariam de forma mais dinâmica, com base na utilização real no momento.

Mas há um problema com a cobrança dinâmica pura, claro: a decisão de utilizar o estacionamento acontece quando saímos de casa no carro, então o condutor precisa de saber nessa altura qual será o custo do estacionamento. O sistema de ajuste mensal, ainda que grosseiro, vai garantir que o condutor pode sempre encontrar tal informação on-line, mas, claro está, o mesmo será verdade se o ajuste for feito a cada dois dias.

Espero que São Francisco utilize os novos dados de ocupação para descobrir como prever a procura com maior precisão, incorporando outras variáveis para além da hora do dia. Em Hayes Valley, por exemplo, a procura de estacionamento na rua é quase certamente afectada por eventos na Opera House e no Symphony Hall, assim como outros eventos menores [b]. O tempo pode desempenhar um factor, mas tanto num sentido como no outro. Somos mais propensos a fazer viagens discricionárias em dias de sol, mas somos mais propensos a preferir conduzir em vez do transporte colectivo ou a bicicleta com tempo frio e húmido. Será interessante ver como o clima afecta os perfis de utilização que a SF Park observa.

Num artigo recente sobre o congestionamento [5], observei que a política de tarifas rodoviárias actual nos obriga a poupar dinheiro, um recurso renovável, gastando tempo, o recurso menos renovável de todos. Se o leitor já andou às voltas à procura de estacionamento, faltando ou chegando atrasado a algo é importante para si, então sabe que o mesmo absurdo é verdadeiro a respeito da nossa política de estacionamento na rua. A SF ParK merece ser observada de perto. E, se não funcionar bem, pergunte a si mesmo:

— Será que é porque não faz sentido cobrar estacionamento com base na procura, ou porque foram tímidos demais para fazê-lo completamente?

A resposta quase certamente será a última. Esta política baseia-se apenas em princípios de mercado livre que já governam muitas partes de nossa economia, porque funcionam.


Notas:

a: Este artigo foi adaptado do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Mesmo que, na rua, a quantidade de estacionamento seja insuficiente para todos os que vão à ópera, os parques de estacionamento que servem a zona estarão cheios, empurrando os que, doutra forma, estacionariam nesses parque, para a rua.

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