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Anotação Musical

A bela da sonata

Por Nuno Rua

Nasceu em mim uma enorme vontade de escrever para este jornal. Não só porque tão bom é escrever como o exercício da leitura, mas também por ver que, quando as pessoas se unem para contribuir para o bem, algo de muito belo pode surgir; e é precisamente pelo conceito de belo que me apraz começar.

A beleza da música toca-nos de maneiras distintas. Julgo que todos nós gostamos de ouvir alguma música, por mais diversa que seja. Com toda a certeza, não vale a pena discutirmos quem tem afinal bom gosto. Com a mesma segurança afirmo que, para cada um de nós, o belo musical existe. Se, ainda assim, pretendermos discutir sobre os gostos, estaremos todos errados, estando concomitantemente todos com razão.

A discussão não é nova: se recuarmos até à Grécia Antiga, dar-nos-emos conta de que muitos pensadores já se debruçavam sobre o tema da beleza. Platão, por exemplo, considerava que o belo estava intimamente ligado ao conceito de bem e de verdade. Este filósofo dizia que:

— Uma vida não questionada não merece ser vivida.

Fazendo jus às suas próprias palavras, dedicou muito tempo a pensar sobre a beleza; tanto tempo, que o seu pensamento construiu o conceito de belo clássico, em que atribui à obra de arte os valores da consonância, da unidade, da coerência e da harmonia. Este conceito veio servir de base intelectual para os compositores musicais do período clássico.

O Classicismo sucede ao período Barroco e antecede o Romantismo. Haydn, Beethoven e Mozart são apenas alguns nomes que contribuíram para o panorama musical compreendido entre o período de 1750 a 1815. Obviamente, estas datas são um balizamento razoável, argumentado por um conjunto de características da música — as grandes saliências artísticas não mudam de um ano para o outro.

A forma da sonata clássica provém desta época. Analisando a estrutura duma destas sonatas, podemos verificar que são divididas em três partes não iguais, mas equilibradas no que toca ao seu andamento e à sua harmonia, o que reflecte desde logo o pensamento platónico. Ressalvo que a palavra harmonia, para os antigos, entendia-se como uma força espiritual capaz de unir os opostos, ou seja, a harmonia era algo que precisava de trabalho para se conseguir; se atentarmos com minúcia, também as relações humanas dependem muito deste labor.

Na primeira parte duma sonata clássica, temos a exposição, em que são apresentados vários temas num andamento rápido, por norma Allegro, até chegarmos à próxima parte, que é denominada desenvolvimento. No desenvolvimento, o compositor, num andamento mais lento, dá azo à sua imaginação e estende a peça musical por caminhos musicais mais longínquos da tonalidade inicial da obra. Chegamos assim à última parte, a reexposição, que, conforme o nome indica, repete os temas apresentados na primeira parte, contudo com uma elaboração diferente e com um andamento novamente rápido. Este modelo dividido em três foi uma invenção do Classicismo — anteriormente, a forma da sonata era binária, com um andamento rápido e outro lento, não havendo o tal equilíbrio, dando lugar à irregularidade enfatizada na época Barroca.

Proponho então aos leitores a escuta da sonata de Mozart nº 17 (K570) na tonalidade de Si bemol Maior, interpretada pela pianista Maria João Pires [1]. Para quem, depois de ouvir, não gostar, penso que será bom e produtivo se atentar, através duma escuta activa, na presença do equilíbrio, da harmonia e da coerência. Para quem gostar, aproveite esse instante mágico!

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