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Docendo Discimus

Dos parasitas da sociedade

Por Hugo Pinto de Abreu

Há alguns dias, assisti, por razões que não é agora oportuno explicitar, a uma missa ferial, isto é, num comum dia de semana (não era Domingo nem dia santo), numa igreja (católica), algures na zona ocidental da cidade do Porto.

Na sequência duma leitura da Segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, que diz, entre outras coisas «quem não quiser trabalhar, não coma» — São Paulo tem aliás outras passagens que causam arrepios vistas no contexto hodierno, por exemplo sobre a escravatura — o sacerdote que oficiou a missa fez um sermão cujo conteúdo me parece pertinente discutir neste Docendo Discimus [1].

Em suma, o presbítero insistiu na verdade da citação literal, ou seja, quem não trabalha não deve comer, nem ser ajudado. Ajudar «parasitas», prosseguia, é algo mau, que deve ser evitado; e quem o faz são pessoas «ingénuas». E, naquele que para mim foi o dito decisivo, explicou que há pessoas que se queixam da «má sorte», mas a sorte, boa ou má, somos nós que a fazemos.

Se eu pudesse colocar questões, a primeira seria sobre o que é não querer trabalhar: um reformado não quer trabalhar? Um jovem de catorze anos, que já poderia ir coser uns sapatos para uma fábrica, mas que em vez disso vai à escola, não quer trabalhar? Um estudante que termine o secundário e vá para a universidade, não quer trabalhar? Um desempregado que não aceite o primeiro emprego claramente abaixo das suas qualificações e experiência que lhe for oferecido, não quer trabalhar? Uma pessoa com problemas sérios de depressão, que afectem gravemente a sua capacidade profissional, não quer trabalhar? Um toxicodependente que ainda não esteja recuperado e reintegrado não quer trabalhar? Enfim, acho que teria sido útil obter uma definição mais precisa de quem são os «parasitas» e a quem devemos, por virtude, deixar morrer à fome, se for preciso.

A segunda questão teria a ver com a ideia de nós sermos totalmente responsáveis pelo nosso destino, pela nossa «sorte». Deveremos considerar que alguém que é atirado para a pobreza porque nasceu ou ficou deficiente está a expiar os seus pecados, ou os dos seus pais? Talvez tantos povos em África estejam a pagar as consequências do seu paganismo pela pobreza e pela doença? Talvez os judeus tivessem o que mereceram às mãos do regime nacional-socialista, porventura por terem rejeitado Cristo? Talvez as vítimas de catástrofes naturais não sejam vítimas, mas apenas criminosos castigados pela «mão invisível» de Deus ou dos deuses, do destino, da Economia, da Natureza, etc. Afinal de contas, nós é que fazemos a nossa sorte.

Este tipo de pensamento parece-me estar firmemente alicerçado na estupidez e na leviandade e é terreno fértil para justificar toda e qualquer atrocidade e desumanidade.

Ademais, nem a coragem do discurso (ainda que cretino) posso elogiar. Gostaria de ver este sermão dado numa igreja de bairro social, ou até mesmo na Sé — à semana são sempre as pessoas simples e humildes daquela zona que assistem à celebração —, mas não: tudo isto foi dito numa das zonas mais ricas da cidade do Porto (e de Portugal).

Isso deixa-me uma última questão: senhor padre, receber dividendos e realizar mais-valias conta como trabalho? É que, se não conta, afinal foi um discurso muito corajoso…

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