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Consultório da Ria

Utilidade marginal

Por Hugo Pinto de Abreu

Antes de levar o ouvinte, como pretendo fazer em futuras edições deste «Consultório…» [1], a discussões sobre preços e sobre situações concretas — nomeadamente, históricas — de certos mercados e sociedades, é forçoso tratarmos uma questão central da ciência económica, que nos vai permitir ter as coisas mais claras: falaremos da teoria do valor [a].

Efectivamente, quando queremos entender algum assunto de forma mais profunda, temos forçosamente de colocar em causa — ou melhor, analisar criticamente — certos fundamentos que costumamos dar por adquiridos, ou, pelo menos, que nunca conscientemente havíamos posto em causa. É o que hoje faremos: afinal, o que dá valor económico às coisas, o que dá valor económico a um bem ou a um serviço?

Este é um problema antigo, sobre o qual se debruçaram vultos como Aristóteles [3] e Adam Smith [4], que tiveram, aliás, intuições muito acertadas sobre o valor económico, mas que não conseguiram formular de forma exacta.

O que faz com que um bem ou serviço tenha valor; o que faz com que tenha mais valor que outro? Será que se deve a alguma qualidade intrínseca? Se assim fosse, como explicar que uma determinada quantidade de especiarias pudesse valer mais que um escravo, nos tempos onde a prática abominável da escravatura era permitida?

Será que se deve, então, à utilidade de determinado bem e serviço? Tal explicação também não convence, e deixa-nos perante um paradoxo que se tornou um clássico da ciência económica, o paradoxo da água e do diamante [5], que poderíamos resumir assim: se a água tem muitíssima mais utilidade que um diamante, por que razão um diamante vale — normalmente, habitualmente — mais do que uma garrafa de água?

Espante-se, caro ouvinte, porque esta questão só teve uma resposta plenamente satisfatória no século XIX, entre o final da década de sessenta e a primeira metade da década de setenta desse século. Sempre achei este um facto histórico notável: o duma explicação tão importante e aparentemente tão óbvia demorar tanto tempo a descobrir — e, quando foi descoberta, foi proposta quase ao mesmo tempo por três economistas diferentes, que trabalhavam sem relação entre si; falamos do austríaco Carl Menger [6] (considerado o fundador da «Escola Psicológica» ou «Escola Austríaca» [7] da Economia), o inglês William Stanley Jevons [8] e o francês Walras [9]. Não há fome que não dê em fartura!

A Revolução Marginalista [10], expressão pela qual ficaram conhecidas estas descobertas, explicitou o mecanismo da atribuição de valor económico, um mecanismo que efectivamente tem a ver, como havia há muito sido intuído, com uma combinação de considerações sobre utilidade e escassez: a resposta encontra-se na utilidade marginal dum determinado bem ou serviço, ou seja, da utilidade e do preço da última unidade que ponderaremos consumir.

Assim, um diamante tem normalmente um preço superior ao da água, apesar desta última ter, em abstracto, maior utilidade, pelo simples facto de, normalmente, a utilidade marginal da próxima garrafa de água que queremos consumir é bastante baixa, porque estamos habitualmente bem fornecidos de água, fazendo com que tenha um preço baixo. Bem diferente seria se estivéssemos a morrer de sede num deserto: aí, a utilidade marginal duma garrafa de água seria imensa, gigantesca, seria o valor duma vida, da nossa vida, e por isso mesmo estaríamos dispostos a trocar uma garrafa de água por todos os diamantes do mundo, se necessário fosse.


Nota:

a: Este assunto foi já tratado na «Rua da Constituição» [2].

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