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Expectativas na formação

Por Carlos Lima

Quando se olha para o Mundial de futebol, estamos a olhar para um universo de 736 atletas, tidos como a nata do futebol mundial. É verdade que são dos melhores futebolistas mundiais, mas há muitos outros que ficaram de fora, porque o Mundial é uma prova por equipas — aliás, como todo o futebol. O que supostamente ali está é o conjunto de equipas que, durante cerca de dois anos, foram as melhores nos seus grupos; isto quer dizer que, no grupo ao lado, pode ter ficado de fora uma equipa melhor que a primeira noutro grupo, e que, na equipa que ficou de fora, possam existir atletas melhores do que os que foram apurados — mas a «selecção» é isso mesmo: chegar a algo com determinadas características.

O futebol é realmente muito mais do que um campeonato, do que um Europeu ou um Mundial: é um conjunto de pessoas anónimas, gente voluntária e por vezes voluntariosa, que trabalha na formação dos atletas que chegam a este nível, entre milhões que ficam pelo caminho. Para se falar dum futebolista famoso, muita gente esteve envolvida na sua formação. Por vezes, parece que toda a gente se esquece desse pormenor, que é um «pormaior». Até os próprios atletas parecem acreditar que mais nada nem ninguém importa e que são o que são por geração espontânea, mas esquecem que só lá chegaram porque, desde muito cedo, tinham uma equipa (fosse ela de rua, de escola ou dalgum clube com formação) e adversários que os fizeram sobressair.

Trabalhar na formação é aliciante, porque se vê o atleta a crescer como futebolista e de preferência como homem, mas também é muito complicado, pelas condições em que por vezes se tem de trabalhar, ou pela gestão difícil das expectativas. Quando um «pai» leva o seu filho ao clube lá da terra com três ou quatro anos, não vê o seu filho pelo que ele joga, mas pelo potencial que ele representa. Nestas idades, tendem a elogiar o filho e a falar com ele durante o jogo, o que prejudica mais que o que ajuda, porque distrai o atleta da sua tarefa e introduz o processo competitivo, que eu acredito não ser a essência desta fase. Um treinador (por vezes sem nenhuma formação especifica, ou muito limitada) vê-se perante a gestão dos atletas e as expectativas dos pais. A criança, nestas idades, durante períodos relativamente curtos, só pensa na «redondinha» e na forma de controlá-la, dentro da sua forma descontrolada, em que a bola parece ter vida própria. Quando já o consegue, quer é fazer aquilo que se convencionou chamar de golo. É no golo que os pais e, muitas vezes, os treinadores se empolgam e passam à euforia. Começam a valorizar os marcadores de golos, que, nesta fase, tendem a ser sempre os mesmos, porque são os que estão mais evoluídos, e a esquecer os outros, que tentam fazer o seu melhor. Passa a ver-se as crianças como adultos em ponto pequeno.

Claro que, quando uns têm sucesso, muitos outros não o têm; e aparecem muitos pais e ditos treinadores a passar tremendos «bigodes» aos filhos e aos atletas, em vez de potenciar o que de bom já foi feito. Felizmente, pela minha experiência, que confesso muito limitada, estas situações são cada vez menos e a generalidade dos treinadores é, acima de tudo, gente bem formada e capaz de potenciar as melhores características de cada criança — preferindo ganhar a perder, mas percebendo que as derrotas também ajudam a formar gente competente e capaz de vir a ganhar. Ensinar a ganhar é sempre mais difícil do que gerir as derrotas, porque a vitória gera euforia em toda a gente e torna complicado gerir expectativas. Na vitória, fica-se muito tempo a falar dela. A derrota une, para trabalhar para a vitória. Nestas idades, as crianças saem de uma derrota, esquecem e voltam ao entusiasmo do jogo.

Com a evolução da idade, o aspecto competitivo vai ganhando mais peso, as competências individuais vão fazendo a selecção e, por fim, ficam dois grupos de atletas: os que gostam de jogar porque se sentem bem, porque é divertido e liberta a mente; e os que, a diversos níveis, vêem a competição como a essência e uma forma de ganhar algum (ou muito) dinheiro.

O futebol é realmente um desporto apaixonante. A euforia do golo é tão excitante, que mesmo o atleta que já parecia não conseguir dar mais um passo faz um festejo entusiasmado. A formação no futebol é fundamental, de preferência com gente competente, que forme homens futebolistas e que tenha a preocupação de gerir, em todas as fases da evolução, as expectativas dos atletas e as suas capacidades. Dar as oportunidades certas, no momento certo, leva ao craque; mas o craque tem sempre a sombra dos milhares que o ajudaram a ser, sem o poderem ser — colegas e adversários.

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