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Sete instrumentos

Por Gustavo Martins-Coelho

Num mês, fui médico, jurista, político, setôr e polícia. Mas não estúpido. Há vida melhor? O meu mundo tornou-se circularmente perfeito.

Numa frase, cabe a felicidade. A tristeza, porém, precisa de parágrafos infindos. É mais fácil sofrer do que alegrar-se; é mais fácil chorar do que rir. Por isso existem anti-depressivos: para ajudar no difícil caminho ascendente — porque, para baixo, todos os santos ajudam; não é preciso tomar comprimidos.

O rio da tristeza flui mais depressa do que as palavras podem brotar da nascente. Transborda o desapontamento, essa espuma que se sabe que vai chegar à borda do copo, mas sempre se espera vagamente em vão que não. E depois, as perguntas, de quem não compreende. Não compreende o mundo à sua volta, nem quando o mundo lhe entra pela janela adentro em bolas de sabão. Rebenta com as bolas de sabão, essas enxeridas! Derrete todos os sabonetes, esses apagadores de almas! Não há saponificação que penetre nesse vazio. A alma na palma da mão…

Pergunta, sempre. Um dia, continuarás sem achar a resposta.

— Mas eu quero compreender-te!

Eu também quero ganhar o Euro-milhões!!! Ou uma frase. O meu bilhete premiado por uma frase! A frase perfeita! Está quase: seria a hora, se não houvesse nada para trás, à espera de ser!

Tanto do que é não é, na realidade! E, mesmo quando vem a ser, nunca chega a ser como fora!

Para compreenderes, tens de perceber que o desconto com desconto é menor do que o desconto sem desconto. Faz as contas e verás. Se fizeres as contas todas, até poderás saber quanto é seis por cento do produto interno bruto. Mas para que serve saber tudo isso?

Olho para ti e relembro todo o mal. O bem, se o houve, está escondido debaixo duns trapos velhos, ofuscado.

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