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Transporte Humano

Alerta para o jornalismo do incrível: «os peritos avisam» que os túneis custam dinheiro

Por Jarrett Walker [a]

James Fallows, do The Atlantic [2], procura contrariar o hábito dos jornalistas em resistir a fazer qualquer tipo de declaração factual objectiva [3]:

No ambiente político de hoje, quando tantos factos simples são contestados, os jornalistas podem sentir-se inibidos de afirmar claramente o que é verdade. Com um receio antecipado das cartas iradas que irão receber, ou dos artigos hostis que vão aparecer na blogosfera, eles optam por segurar-se, escrevendo: «segundo a maioria dos cientistas, o sol nasce a Leste, embora os críticos digam…»

Como se traduz isto no jornalismo respeitante ao transporte colectivo? Muito, muito frequentemente, os jornalistas apresentam um perito em transporte colectivo a afirmar um facto e outra pessoa a expressar um desejo, como se isso se tratasse dum exercício do contraditório. Por exemplo, vejamos o que disse Mike Rosenberg, da Bay Area News Group, sobre o trajecto da linha de alta velocidade da Califórnia através do subúrbio de Burlingame, ao sul de São Francisco [4].

Os autarcas de Burlingame querem toda a extensão da linha ferroviária de alta velocidade planeada enterrada. […] Os peritos ferroviários estaduais dizem que ficaria várias centenas de milhões de dólares mais barato construir a linha à superfície, mas os moradores temem que tal represente quase dez metros de construção aérea, produzindo mais ruído e criando uma divisão física.

Note-se a tensão entre os dois predicados. «Os autarcas de Burlingame querem» e «os peritos ferroviários estaduais dizem». O texto está disposto de forma a soar como «ele disse, ela disse.»

Mas estas duas frases não descrevem, de forma nenhuma, um desacordo. As autoridades da cidade de Burlingame estão a indicar um desejo, o de ter a linha subterrânea, ao que os peritos ferroviários estaduais estão a responder com informações sobre as consequências, ou seja, que a linha enterrada seria mais cara. Mas isso não é um desacordo; são os profissionais a fazer o seu trabalho.

O desacordo é, na verdade, sobre quem deve pagar o enterramento da linha, que Burlingame quer. O estado da Califórnia diz que, se uma cidade quer a rede ferroviária de alta velocidade subterrânea, deve pagar a diferença. O artigo cita a resposta do autarca de Burlingame, Terry Nagel:

Nagel disse que Burlingame poderia gastar os 33 milhões de dólares do orçamento anual da cidade para financiar a linha e mal faria diferença no preço final.

— Não é sequer uma possibilidade a considerar — disse Nagel na Quarta-feira.

Note-se que o autarca entende que a construção da linha enterrada através da cidade vai custar mais do que a construção da linha na superfície. Na verdade, ele tem noção clara de que vai custar muito mais, mais do que todo o orçamento municipal. O custo não está em discussão. Então, por que precisámos de dizer que «os peritos ferroviários estaduais dizem», nesta frase?

Os peritos ferroviários estaduais dizem que ficaria várias centenas de milhões de dólares mais barato construir a linha à superfície

Caeteris paribus, a construção subterrânea é mais cara do que à superfície. Este é um facto universal, facilmente encontrado em qualquer livro de engenharia de transportes, pelo que é enganador descrevê-lo como uma opinião ou alegação.

Mesmo que o jornalista estivesse a pensar como um advogado de divórcio, para quem não pode haver qualquer realidade verificável fora da imaginação febril de ambas as partes, ele poderia, ainda assim, ter dito que «todas as partes concordam que os custos de enterramento são muito, muito superiores à construção à superfície.» O jornalista sabe disso, porque ele citou o autarca de Burlingame mostrando a completa compreensão desse facto, ainda que o facto seja inconveniente para o seu lado.

Então, vamos ler toda esta passagem novamente:

Os autarcas de Burlingame querem toda a extensão da linha ferroviária de alta velocidade planeada enterrada. […] Os peritos ferroviários estaduais dizem que ficaria várias centenas de milhões de dólares mais barato construir a linha à superfície, mas os moradores temem que tal represente quase dez metros de construção aérea, produzindo mais ruído e criando uma divisão física.

Vejamos novamente os três predicados das orações principais: querer; dizer; temer. Emoção; facto alegado; emoção. E ambas as emoções estão do mesmo lado! É tão previsível quanto a estrutura de uma canção pop. O povo de Burlingame vê as suas emoções ecoar duas vezes, enquanto, no lado oposto, ouvimos apenas um facto sobre o custo, apresentado como se fosse a voz dalgum opressor, esmagando as pessoas honestas tentando defender as suas casas.

Jornalistas! Se querem ajudar as pessoas a formar opiniões coerentes com alguma relação com a realidade, coloquem a vocês mesmos estas perguntas:

  • Que factos são consensuais entre todas as partes em litígio e pelos especialistas na área? Apresentem-nos como factos.
  • Se os factos não são consensuais entre todas as partes, são consensuais entre as pessoas especializadas no assunto? Se assim for, digam «os especialistas em geral concordam que…» Essa ainda pode ser uma expressão covarde, tal como «os especialistas em geral concordam que o sol nasce a Leste», mas mesmo isto é muito mais preciso do que «os peritos estaduais dizem…»
  • Existem valores amplamente partilhados subjacentes a ambos os lados? Se for assim, coloquem-nos à vista de todos. Uma pessoa pode ou não concordar que a rede ferroviária de alta velocidade seja uma boa política, mas o seu objectivo fundamental não é torturar o povo de Burlingame. Deixem entrar uma frase padrão sobre os efeitos económicos e ambientais benéficos que os defensores da rede ferroviária de alta velocidade defendem que a linha vai trazer. Nós sabemos quais os valores que os habitantes de Burlingame estão a defender — «casa» — mas que valores são defendidos pelos que estão do outro lado; e podem estes também ser importantes para o leitor?
  • Existem emoções fortes de ambos os lados? Se sim, descreva-as. Neste caso, não basta citar os «peritos ferroviários estaduais», que estão profissionalmente obrigados a ser equilibrados e criteriosos. Citem uma declaração mais viva e mais forte dum defensor acérrimo e informado da rede ferroviária de alta velocidade, a respeido das ações de cidades como Burlingame, e da carga cumulativa que elas colocam na construção da linha. No mundo de hoje de blogues de especialistas, nem sequer é preciso pegar no telefone; basta citar Robert Cruikshank, no seu blogue California High Speed ​​Rail [5], por exemplo…

[Burlingame espera] basicamente que o resto do Estado subsidie o valor imobiliário das suas propriedades. Eu não consigo enfatizar o suficiente o quão absurdo e desligado da realidade é esse ponto de vista. Numa altura em que o valor das propriedades caiu fortemente [6] noutras partes do Estado, por alma de quem alguém em Riverside ou Stockton ou San Diego ou Los Angeles oriental iria achar que os proprietários em Burlingame merecem ajuda estadual para manter o valor dos seus terrenos?

Resumindo: se a vossa história soa como pessoas apaixonadas em conflito com burocratas da contabilidade sem alma, provavelmente ainda não a entenderam bem. É verdade que pode, de facto, tratar-se duma história sobre burocratas venais e corruptos, ou sobre burocratas assustados ou preguiçosos a fazer barulho, mas as regras acima vão ajudá-los a descobrir se tal é o caso. É que também pode tratar-se duma história sobre funcionários públicos especializados a fazer o seu trabalho e, se querem que especialistas honestos e dedicados estejam dispostos a trabalhar nesses locais, então devem-lhes a consideração dessa possibilidade.

Eu gostaria de receber algum contraditório por parte de jornalistas profissionais sobre este assunto. Por favor, leitor, partilhe este texto com quaisquer jornalistas que existam na sua vida! Quanto a mim, sou apenas um consumidor do produto e, muitas vezes, um consumidor não muito satisfeito.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

3 comentários a “Alerta para o jornalismo do incrível: «os peritos avisam» que os túneis custam dinheiro”

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