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O Fundamentalista Científico

Todos os homens são como «Beavis and Butt-head»

Por Satoshi Kanazawa [a]

Num artigo recente, [1] usei o exemplo do desenho animado «Beavis and Butt-head» como ilustração de como os homens sempre sobrestimam o interesse sexual das mulheres em si. O leitor poderá pensar que «Beavis and Butt-head» são personagens bufas de desenhos animados e que os homens e os rapazes reais não se comportam como eles. Bem, o leitor estará errado e eu tenho uma acção judicial federal a prová-lo.

Em janeiro de 1998, a rede de supermercados americana Safeway (que não tem relação com a cadeia de supermercados britânica do mesmo nome e logótipo semelhante, que foi recentemente adquirida pela cadeia rival Morrisons) introduziu aquilo a que chamou de «política de serviço superior ao cliente». Esta política exigia que todos os funcionários da Safeway olhassem os clientes nos olhos e sorrissem. Se o cliente pagasse por meio de cheque ou de cartão de crédito, os caixas eram obrigados a ver rapidamente o apelido do cliente e a agradecer-lhe pelo apelido, do género:

— Obrigado, senhor fulano de tal, por comprar na Safeway — enquanto olhavam para o cliente nos olhos e sorriam.

Como nota pessoal, eu vivia em Palo Alto, Califórnia, durante o Verão de 1998, enquanto era bolseiro de Verão Centro de Estudos Avançados de Ciências do Comportamento da Universidade de Stanford, e eu fazia as minhas compras de supermercado num Safeway local. Eu divertia-me imenso a ver, sempre que pagava, o empregado da Safeway a olhar para o meu cartão de crédito durante trinta segundos e a murmurar:

— Obrigada, senhor… hum… senhor Ka… Kana… hum… senhor Kanazaina… por comprar na Safeway.

Na altura, eu não fazia ideia de que era uma política da empresa recentemente introduzida.

Eu suspeito que a «política de serviço superior ao cliente» da Safeway foi inventada por algum consultor de gestão com um MBA duma prestigiada escola de Gestão. Fiel ao modelo microeconómico do agente singular e unitário dominante nas escolas de Gestão, que não faz distinção entre homens e mulheres, a política da Safeway não faz distinção entre os sexos. Para a empresa, não há homens e mulheres, apenas funcionários e clientes. A regra obrigava os trabalhadores tanto do sexo masculino como do sexo feminino a cumprimentar os clientes masculinos e femininos de forma igualmente «amigável».

Na prática, a política funcionou muito bem em cerca de três quartos dos casos, entre um trabalhador do sexo masculino e um cliente do sexo masculino, entre um trabalhador do sexo masculino e uma cliente do sexo feminino, e entre uma funcionária e uma cliente do sexo feminino. No entanto, a política correu mal quando o empregado era do sexo feminino e o cliente era do sexo masculino. Quando a funcionária olhou profundamente em seus olhos, sorriu e lhe agradeceu pelo nome, o cliente do sexo masculino «naturalmente» assumiu que ela se sentia atraída por ele e começou a assediá-la, dentro e fora do trabalho. Por outras palavras, muitos dos clientes masculinos transformaram-se em «Beavis and Butt-head». No final, cinco funcionárias tiveram de apresentar uma queixa federal contra a discriminação sexual da Safeway para forçá-la a parar esta política, o que a rede de supermercados acabou por fazer através dum acordo extrajudicial.

Esse fiasco foi um episódio embaraçoso e caro para a Safeway. Ele poderia ter sido evitado inteiramente se o consultor de gestão que inventou a «política de serviço superior ao cliente» tivesse qualquer conhecimento de Psicologia Evolutiva, em geral, e da Teoria da Gestão do Erro de Haselton e Nettle em particular (embora, para ser justo, a teoria ainda não tivesse sido inventada, em 1998). Qualquer psicólogo evolutivo poderia ter previsto que a nova política de atendimento ao cliente da Safeway seria um desastre anunciado, porque todos os homens são, na essência, «Beavis and Butt-head». Só um economista seria tão cego.

Para antecipar a pergunta do leitor, a resposta é não: eu não persegui a empregada da Safeway Palo Alto fora. Obviamente, ela não estava verdadeiramente apaixonada por mim, se nem sequer conseguia pronunciar o meu nome.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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