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Estado de Sítio

A arte da catarse

Por Ana Raimundo Santos

Quem me conhece sabe que, via de regra, tendo a ser uma pessoa relativamente bem informada. Por imperativo profissional e também por curiosidade pessoal, leio por dia entre três a cinco jornais e, à quinta-feira, incluo nas minhas leituras duas revistas semanais, cuja leitura me agrada bastante. A variedade de assuntos com o quais tenho contacto diariamente é imensa e díspar. Como diria a minha avó, do alto dos seus 89, quase noventa, anos de idade, a larga maioria das vezes «não bate a bota com a perdigota».

No entanto, não é a diversidade de assuntos que mais me incomoda, até porque é algo que se me afigura bastante prazeroso. O que verdadeiramente tem a capacidade de me admirar, até chocar, é a recorrência de determinados assuntos e a violência que normalmente se encontra associada a esses mesmos temas.

A violência doméstica surge à cabeça destes temas e a verdade é que os números são assustadores, especialmente num país dito civilizado, como este nosso à beira-mar plantado. Há dias, deparei-me com uma notícia que dizia que, no primeiro semestre do ano, a violência doméstica havia aumentado 2,3% [1]. A reacção imediata, por incrível que pareça, foi:

— Só?

Leu bem, caro leitor, questionei-me acerca da pequenez do aumento, considerando que, só no primeiro semestre de 2014, morreram 24 mulheres, 84% das quais vítimas de violência doméstica [2].

No entanto, a violência doméstica é apenas uma parte dos ímpetos violentos que se encontram no interior dos lares portugueses. Todos os dias surgem notícias de maus tratos a menores, perpetrados por progenitores ou familiares próximos.

Reza a sabedoria popular que «a falar é que a gente se entende»; e constato que, no mundo em que vivemos, a comunicação se encontra a viver uma crise tão ou mais grave do que a financeira ou a de valores, que se instalaram na nossa sociedade e teimam em ficar.

Há pessoas naturalmente violentas, é verdade. A natureza humana, no seu estado puro, é selvagem e violenta; e não ouso arrogar-me a posição de questionar esta realidade. Mas a sociedade e a civilização nas quais nos encontramos enquadrados teve a capacidade de nos transformar em animais sociais, capazes de interagir de forma pacífica e de resolver quaisquer questões pela via do diálogo. Este seria o ideal, especialmente entre quatro paredes, onde o que une as pessoas são mais do que laços de sangue, são laços de afectos intrínsecos, que se vão construindo e sedimentando ao longo do tempo.

Então, o que falta?

O que pode ajudar a diminuir muito os casos de violência doméstica?

Na minha modesta opinião, o diálogo e a conversa são a melhor forma de resolver qualquer problema. Não é a discutir que as pessoas se entendem, é a conversar. Digam tudo o que têm para dizer, com a capacidade de ouvir tudo o que têm de ouvir.

A catarse, arte tão desvalorizada e por muitos esquecida, é a melhor forma de limpar problemas e de proteger pessoas e relações. Do meu ponto de vista, o mal de muitos desses casais é não conversarem quando devem, ou não o fazerem de todo, e criarem à sua volta uma panela de pressão, que, mais cedo ou mais tarde, rebenta. Conversar é chato, dá trabalho, é por vezes desagradável? Sim, sim e sim. Mas vale a pena!

Se as pessoas que se envolvem em situações de violência doméstica conhecessem ou dominassem a arte da catarse, não haveria tanta criança órfã de mãe e pai, neste país. De mãe e pai? Sim, caro leitor: de mãe, porque morre, muitas vezes, ou porque perde a dignidade, o amor próprio e a capacidade de exercer condignamente o seu papel de mãe, em virtude de todo o sofrimento que passou; e de pai, porque este, ou é preso ou afastado dos filhos.

Os momentos catárticos, mais do que importantes, são essenciais à convivência humana! Há uns anos, a extinta TMN lançou um anúncio que satirizava a catarse, apelando à comunicação entre as pessoas. Embora fosse uma campanha puramente publicitária, a verdade é que, se nos abstrairmos dos fins comerciais, ficamos com uma mensagem importante: deita cá para fora!!!

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=CqUO8fflWQg]

Vamos conversar?

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