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Olho Clínico

«Deus me dê alegria»

Por Sara Teotónio Dinis

Diz-se que vem aí o SAD — seasonal affective disorder. O distúrbio sazonal preocupa-me; e já começou a dar o ar de sua graça.

Os primeiros três meses deste ano deixaram os doentes deprimidos do ficheiro da minha orientadora à beira do desespero… Foram semanas carregadas de chuva, semanas inteiras sem deitar o olho ao Sol! Eles não saíam de casa… Não se davam às actividades propostas. Bem sabemos que a medicação é importantíssima, mas o sucesso terapêutico depende muito mais do resto (na minha modesta opinião) — das relações familiares e sociais, das actividades laborais e de lazer, da natureza da vontade que o próprio tem em melhorar. A chuva já regressou e os dias são progressivamente mais pequenos. A parca ou mesmo inexistente exposição solar não ajuda à produção da melatonina e o nosso humor sofre um rebate.

Os mesmos doentes que sofreram no início do ano estão de novo a ir-se abaixo. Lembro-me com mais pormenor do sr. F. F. e da sr.ª M. M., presos nas suas mágoas, perpetuando acontecimentos passados e extremamente dados ao evitamento social. Tenho tido oportunidade de lhes dizer para resistir à ausência de vontade, para não a deixar dominar a motivação e, sobretudo, para saírem de casa. Nunca pensei que fosse uma batalha tão difícil… Apresentam mil e um motivos para não o fazer e não concordam nem discordam quando lhes contraponho outros tantos para sair. Limitam-se ao silêncio e fixam-me seriamente, mas sem esperança no olhar.

Uma alma adormecida pela tristeza, soturna, esmagadora e opressiva comanda-lhes a voz e o corpo e torna-se quase impenetrável. A depressão é de facto avassaladora…

Gostava de conseguir perceber como funciona o pensamento dum deprimido. Já passei por dias tristes, negros, péssimos até! O humor arrasta-se no lodo, as lágrimas secam a própria fonte e o apetite tira férias. Um dia na penumbra e sem comer é suficiente para começar a sentir as pernas fraquejar. Mas o que farão então semanas e meses disso? Não consigo imaginar…

Antes, havia consultas de Psicologia disponíveis para os utentes do centro de saúde, dado que estava contratada uma psicóloga a tempo inteiro. Mas o contrato findou e não foi renovado e, mesmo no serviço de Psiquiatria do hospital central, não há resposta para a maioria dos utentes. E faz-lhes tanta falta…

Cá estaremos para tentar o que nos for possível. É caso para dizer… «Brace yourselves. Winter is coming.»

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