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Anotação Musical

Música electronicamente estranha

Por Nuno Rua

A música electrónica não é um produto de extraterrestres. Apresento-vos, assim, uma irritação que tem perseguido parte da minha vida. Sempre me deparei com estereótipos em relação a este tipo de música, como se, pelo facto de ouvi-la ou criar música desse género, tivesse eu de ser um poço de pecados. Sou, de facto, pecador, mas talvez não seja por ouvir música. O pior é que estes juízos de valor vingam, muitas vezes, em instituições onde a liberdade de pensamento deveria ser um imperativo categórico, como, por exemplo, nas faculdades onde se ministram cursos de música ou de jornalismo musical.

Vamos colocar as cartas em cima da mesa. Em primeiro lugar, o termo «música electrónica» remete para uma música que não é meramente tratada em estúdio, mas antes para uma música cuja génese está no próprio estúdio. Nos dias que correm, todas as músicas são tratadas em «laboratório». Ainda que não sejam todas entendidas como música electrónica, pelo que acima foi dito, todas elas são um produto, isto mesmo, um produto, tão industrializado como um carro, um computador ou um livro. O facto de pensarmos na música como um produto não lhe retira valor; ajuda-nos antes a entender melhor os seus fenómenos.

Em segundo lugar, um produto não é só para menores de dezoito anos, ou para almas selvagens: é para quem gostar de consumi-lo. Quando se afirma que «esta música não é para a minha idade» ou «esta música é para malucos», está a ampliar-se ainda mais o preconceito. Noutra perspectiva menos parcial, há uma afirmação alternativa, mais justa e simples, «esta música não é para mim». Não ouvir, porque não se gosta, é absolutamente sincero; não ouvir, por preconceito, é verdadeiramente empobrecedor.

O terceiro ponto que quero referir vai de encontro à complexidade desta música, que tem harmonia, inversão de acordes, modulações de tonalidade, entre outras características importantes. Para os mais cépticos, aqueles que «desta água nunca beberão», aqueles que não acreditam que pode haver na música electrónica a mesma complexidade melódica que na Primavera de Vivaldi, por exemplo, saibam que «esta água» é rica em harmónicos, em efeitos sonoros e em complexidades rítmicas. Nomes como Mike Oldfield [1] ou Jean Michel Jarre [2] deram-se à miscisgenação com a música electrónica; embora com frequência diferente, ambos tiraram partido dela.

Em quarto lugar, estes cruzamentos de estilos musicais são vastos. Nomes como Boney M [3], The Beatles [4], David Bowie [5], Michael Jackson [6], Madonna [7], Lady Gaga [8] e os que a indústria musical trouxer à tona procuraram, ou vão nalgum momento procurar, os ritmos e as melodias da música electrónica de dança, para que esta mescla possa conferir aos seus temas a propagação das remisturas dos seus originais em qualquer ambiente dançante. Desta forma, o mercado para o escoamento do produto aumenta.

Concluindo, foi precisamente com a mistura de estilo que a música electrónica de dança se foi construindo: na tentativa de levar para os clubs americanos as músicas pop e funk com um ritmo de fundo, a música obtia assim um carácter indiscutivelmente dançante. Até que, a certa altura, nos anos oitenta, esses ritmos que impulsionavam a pop e o funk passaram a ser autónomos e se multiplicaram, até aos dias de hoje. Nalguns países, este estilo de música já é respeitado e dignificado como qualquer outro, sem discriminação ou preconceitos negativos adjacentes. Faltará muito tempo para ser assim em Portugal?

Termino com a sugestão dum exemplo musical, ao vivo, dos irmãos ingleses Disclosure, tocando o tema «Help me lose my mind» [9].

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