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Olho Clínico

Angústias…

Por Sara Teotónio Dinis

Lembram-se da senhora que estava grávida e fumava [1]?

Na semana antes de eu ir de férias, esta senhora apareceu novamente na consulta, desta vez com o resultado da ecografia do segundo trimestre — a conhecida, onde se realiza uma avaliação exaustiva da morfologia fetal.

O bebé apresentava um perímetro abdominal inferior ao percentil 5 e a sua actividade também era inferior à esperada para um feto de 22 semanas. Assim, esta situação foi sinalizada e a senhora ficou de ir novamente à maternidade passadas duas semanas, para repetir a ecografia, com o aviso de, caso a situação não tivesse melhorado, ficar internada até ao final da gravidez.

Portanto, vim de férias sem saber o que aconteceu a esta senhora e com a sensação de que a história «tinha tudo para correr mal», como se costuma dizer. Note-se que, mesmo após a sinalização da situação referida e o aviso, a nossa grávida fumadora continuou a puxar do cigarro, como sempre tinha feito até à data.

Hoje foi dia da primeira consulta do G.. Contra a trombofilia materna, o oligoâmnios e a restrição do crescimento intra-uterino, o G. nasceu há seis dias, à 36.ª semana de gestação, por cesariana electiva, com um peso aproximado de 2.500 g e Índice de Apgar 7–8–8. Hoje, tinha 2280 g. Tem um comprimento de 44 cm e um perímetro cefálico de 33 cm. Isto dá um peso e uma estatura abaixo do percentil 3. Apresentou um tónus normal em flexão, boa actividade e vitalidade, reflexos presentes e simétricos, estabilidade hemodinâmica e respiratória e um restante exame objectivo completo dentro da normalidade, apesar de quase não ter rabinho e de ter os bracitos e as pernitas delgadinhos. O choro observado não foi vigoroso e a pega à mama presenciada não foi forte o suficiente para nos tranquilizar.

A mãe está feliz e o pai também. Mas nenhum dos dois lhe comprou roupa à medida do percentil baixinho que tem e a mãe não deixou de fumar. Nem durante o internamento de onze semanas, nem depois do dia em que este bebé, seu filho, abriu os olhos ao mundo.

Olhei para o G. e sorri com a esperança de que, um dia, seja feliz… Mas a despedida de hoje foi como que assombrada por uma angústia muda e ensurdecedora, só igualável aos murros no estômago que levei durante o mês que passei em Pedopsiquiatria, no Ano Comum… e ao silêncio das imagens das crianças caídas na Faixa de Gaza.

As crianças… Raios, as crianças! Se não for por nós, que seja por elas!…

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