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Formar ou formatar? Educar ou domesticar?

Por Carlos Lima

Todos os dias, ouvimos falar de formação desportiva, como forma de criar bons desportistas. Todos os dias, ouvimos falar de educação, como forma de criar bons profissionais desta ou daquela área. O curioso é que as mais variadas entidades usam essa linguagem, pelo que me assaltou a ideia: se formar não é muitas vezes confundido com formatar; e se educar não é confundido com domesticar.

No desporto em geral e no futebol em particular, assiste-se muito à ideia de que formar bem é formar para a competição e para a competitividade, numa assimilação de competências, que vão fazer daquele atleta um craque.

Na vida em geral e na escola em particular, ouve-se muito falar de educação para a cidadania, mas depois cumpre-se programas estanques, por disciplina, como se todos os saberes se concentrassem na disciplina — temática — e na disciplina — comportamento.

A minha grande dúvida centra-se nos conceitos, porque há frases que, ditas em determinados contextos, parecem descontextualizadas. Formar no desporto é muito mais do que gerar um craque: é ajudar a pessoa a chegar ao máximo da sua criatividade, a partir dum conjunto de situações modelo, que ajudem a criar competências para que a pessoa se adapte a novas situações.

Educar é bastante mais abrangente do que formar, porque não se centra na pessoa em função de determinado objectivo, mas preocupa-se com a pessoa em si, para que ela se adapte a vários contextos — sejam eles escolares, profissionais, familiares, sociais, etc.; é dimensionar a pessoa para saber ser, para saber estar, para saber saber e para saber inovar.

Formar um desportista pode não ser educar… Podemos ensinar-lhe a técnica, os aspectos tácticos e até a saber estar dentro da modalidade, mas, se não o ensinarmos a relacionar-se, se não lhe dermos uma dimensão social, se não conseguirmos um bom balneário, se não conseguirmos que a actividade seja integradora do atleta e da própria família, quando acabar o desporto, acaba o homem; e temos muitos bons exemplos disso, na nossa sociedade. Por isso, pergunto-me, muitas vezes, se aquilo a que chamamos educar não é mais domesticar, ou adestrar. Porque domesticar visa a obediência cega, o desempenho de tarefas rotineiras e sem criatividade.

A formação, ou educação, de desportistas deve visar a pessoa no seu todo: pessoas capazes de interpretar no palco do desporto e capazes de participar no teatro da vida. Gosto de pensar que o desporto é, na sua essência, beleza, o expoente máximo da formação e da educação, porque, com um pouco de cuidado, consegue-se trabalhar os vários aspectos do desenvolvimento da pessoa. Principalmente na criança, isso é feito em jeito de brincadeira; e as brincadeiras envolvem um conjunto de competências do formador, entre as quais a disponibilidade para aprender com cada criança e com cada situação. Educador que aprende, ensina a ensinar e ensina a aprender, consegue reflectir e fazer reflectir sobre o que está a acontecer.

Existe um dito na medicina, que é muito sábio: «quem só sabe de medicina, nem medicina sabe»; e que tenho vontade de adaptar — quem só ensina desporto, nem desporto ensina; quem só estimula a competição, nem para a competição prepara. Espero que a passagem da responsabilidade de reconhecimento de competências para a formação desportiva para o Instituto Superior de Desporto (ISD) tenha como objectivo a maior credibilidade dos formadores e educadores e uma maior exigência de aptidões pedagógicas, de forma que a pessoa, em particular a criança, possa beneficiar de formação e educação adequada a cada fase do seu desenvolvimento.

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