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Bons exemplos

Por Carlos Lima

Ouvi, há dias, na rádio que, na Colômbia, estão a desenvolver-se programas que envolvem o futebol para retirar os jovens da criminalidade organizada, com excelentes resultados, pois:

— Os jovens trocam o tráfico, os consumos e as armas por uma bola — disse o Fernando Alves, no programa Sinais, da TSF.

Esta ideia encaixa perfeitamente na minha concepção do desporto enquanto formação: sempre vi o desporto como forma de integração social e de prevenção de comportamentos desviantes — ou, se quisermos, como forma de gerar comportamentos e atitudes que conduzam a hábitos de vida saudáveis.

É impossível que os nossos jovens sejam todos atletas de alta competição — mas que importa isso, perante o bem-estar que o desporto gera no momento da prática? Os desportos com artefactos são sempre muito dinâmicos, porque a tentativa do domínio do artefacto e a imprevisibilidade do comportamento do mesmo são realmente desafiadores. A necessidade dum nível elevado de destreza faz com que a pessoa lhe dedique níveis de concentração muito altos, sem que isso se traduza na sensação dum esforço mental significativo.

Voltando ao exemplo da Colômbia, é importante destacar que estes programas trazem sempre expectativas para o indivíduo, em mudar o seu estilo de vida. Essas expectativas são tanto maiores quanto os resultados são mais valorizados e quanto mais surgem exemplos de sucesso — como é o caso actual de futebolistas colombianos a atingir o topo mundial e a permitir transferências que põem qualquer pessoa a sonhar — quanto mais os jovens!

Com os casos de sucesso, as coisas até correm, regra geral, muito bem; mas há que não esquecer os casos de insucesso. Aqui, aparece o papel fundamental do trabalho com a verdadeira equipa, a que inclui os jovens, os treinadores, os pais e a organização social, contando com a escola. O que percebo em Portugal é que a maior parte das situações está compartimentalizada: a escola é a escola, as organizações desportivas são outra realidade e os pais e os atletas as únicas pontes de contacto. Mas falta muito mais: falta trabalho em conjunto. Falta entender a pessoa como um todo, em que ninguém está a mais e em que as dificuldades duns podem ser superadas por outros. Se o não fizermos, vamos assistir a determinado tipo de organizações, internas e externas ao grupo, criarem espaços para introduzir comportamentos menos saudáveis, porque existe muita gente atenta e organizada para estes momentos de fragilidade.

Os pais, claro, são um elo importante; mas, por vezes, são eles o centro dos problemas, quando também eles não têm hábitos de vida saudáveis, ou quando, em grupo, adquirem hábitos menos recomendáveis, como o de festejar os golos e as vitórias dos filhos com excessos alcoólicos — como se a escapatória que o desporto criou para os filhos precisasse de ser regada com tamanho extravasamento de «alegria», que por vezes acaba roubando aos filhos a alegria do sucesso.

Entra aqui o papel difícil, mas ambicioso, do treinador, ao perceber estes momentos e ao trabalhá-los positivamente, quer junto dos jovens, quer junto dos pais, quer ainda junto da escola, onde muitas vezes o jovem é castigado pelo seu insucesso, ou mesmo pela incapacidade emocional para o sucesso. Para tal, é importante que o treinador não entre no mesmo tipo de euforias e se mantenha como um exemplo de hábitos de vida saudáveis. O futebol, ou qualquer outro desporto, é um importante suporte para muitos jovens. O treinador tem de se assumir como condutor desses jovens e tem de ser um exemplo que eles admirem e queiram seguir, pelo que, quanto mais trabalho fizer fora do campo, mais capacidades os atletas vão disponibilizar no campo.

Se assim não for, «quimera das quimeras»…

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