Categorias
Anotação Musical

Imagina jornalismo

Por Nuno Rua

Quando, numa atitude construtiva, se comunica, dentro dum plano social onde impera a liberdade, muitos são os frutos que se pode colher, a médio e a longo prazo. A sociedade floresce no esclarecimento, as  minorias desabrocham e cresce a igualdade para com o próximo. Neste cenário ideal, mas não impossível, ganha-se muito em entender um conceito, de seu nome juízo reflexivo, composto pela subjectividade dum juízo estético e pela objectividade dum juízo teleológico. Immanuel Kant [1], como forma de chegar ao conceito de verdadeiro belo, alertou para a necessidade de nos cultivarmos, ao ponto de obtermos a capacidade de avaliar o que é bom, colocando de parte os nossos valores em prol duma avaliação objectiva, fugindo assim da trivialidade de que «os gostos não se discutem». Quando este trabalho intelectual não é feito, no caso, pela comunicação, a cultura dum povo estanca, podendo mesmo deteriorar-se. A liberdade pode ser, então, a bactéria que faz apodrecer os frutos.

O valor da palavra é uma verdade absoluta; é aquilo que pode unir-nos, em última instância; é o poder de nos enganar e de nos persuadir; é o veículo de tradições; é o material das artes; é o registo da história do Homem; é a única forma de liberdade dalguns homens. É tudo isto, a tónica dum comunicador. Hoje, a informação corre a uma velocidade estonteante, só superada pela velocidade com que a mesma desaparece. A comunicação presenteia-nos com aquilo a que eu gosto de chamar «jornalismo light», onde parece que tudo pode ser dito, porque tudo é aceitável — é a troca das palavras por lérias. São os verdadeiros naïf da comunicação, os iluminados que conseguem escrever sobre música, sem saber o que é uma tonalidade, ou uma modulação, sem pensarem na música como um produto da indústria ou sem sequer imaginarem que o que estão a comunicar diz mais dos próprios do que propriamente de quem é criticado.

O problema deste tipo de comunicação é que embrutece as pessoas. Já nem falo do facto do penteado do Cristiano Ronaldo ser alvo de notícia nos jornais televisivos [2]. Falo de jornalistas que passam o seu juízo estético para os leitores, sem se aperceberem daquilo que estão a fazer (porque apercebendo-se, torna a prática da profissão inviável), quando o mais importante numa notícia é a disposição dos factos, para que o leitor crie os seus próprios juízos de valor. Se o que vos passo a mostrar não é uma notícia mas sim um artigo de opinião, então o caso é mais grave ainda, pois, se o jornalista só se reflecte a si, também só fala para si.

A banda americana Imagine Dragons [3] visitou novamente Portugal; desta vez, esteve presente no festival Nos Alive 2014 [4].  O concerto teve a cobertura da Blitz [5], pela mão de Luís Guerra, que não só é jornalista, como também é editor desta revista. Das suas palavras, não se entende se estamos perante uma notícia, um artigo de opinião, ou uma nota editorial; sei apenas que tem como título: «Os Imagine Dragons querem ser todas as bandas (e arriscam-se a não ser nenhuma)» [6]. Este iluminado da escrita começa por dizer que o público foi maioritariamente feminino e que, só por isso, a exultação foi manifesta, o que me leva, desde logo, a perguntar se, nos dias que correm e mesmo na história da música, é estranho ou surpreendente vermos um artista ser assediado pelo público. Será isto notícia?

No parágrafo seguinte, Luís Guerra salienta que a banda americana, em palco, se parece com os The Killers [7] e que as guitarradas são ao estilo dos U2 [8]. É isto opinião? É que não entendo se ele esteve no mesmo concerto que as outras pessoas, se estava num estado alterado de consciência, ou mesmo se estava a ouvir os U2, no seu mp3, enquanto via este concerto. Por muito estúpida que possa parecer esta minha última suposição, é aquela que ganha mais força, já que o lema da revista [5] é: «nunca se ouviu uma revista assim». É de facto importante usar os olhos, mas talvez seja igualmente relevante ouvir a música, digo eu…

Luís Guerra insiste e, no terceiro parágrafo, refere que os Imagine Dragons fizeram uma versão da música «Song 2» [9], dos Blur [10], classificando-a como uma «homenagem engraçadinha que os ingleses não mereciam». Apercebo-me agora de que talvez todas as minhas dúvidas tenham a ver com o facto deste jornalista ser Deus — sim, ele sabe o que o próximo merece, ele e o seu juízo de valor são O Juízo. Não é preciso justificar: se ele disse, é verdade; convém só informar este senhor de que os U2 também fazem versões; e até Mozart ou Bach as fazem — a música também é interpretação. Podemos ler adiante: «e depois vem On top of the world e o mundo Alive explode em selfies, calções de ganga bronzeados e tanta alegria com música oca». Cheira-me que, nisto tudo, não é a música que é oca — é o resto: os milagres e mistérios; S. Luís conseguiu fazer com que o povo, a determinada altura do concerto, tirasse fotografias — vejam bem, fotografias! Conseguiriam imaginar tal marco? Os mistérios não ficam por aqui, reparem que conseguiu bronzear toda aquela gente em segundos! Em tempos tão difíceis e com o frenesi a que se assiste nos solários, não é mal pensado que este Übermensch deixe o jornalismo e enverede por uma carreira como empresário — é só uma sugestão, mas tenho a certeza que seria o número um da indústria do bronze.

Ora bem, os Imagine Dragons não são os compositores que vão escrever os novos volumes do «Cravo bem temperado» [11], nem a segunda saga do «Anel de Nibelungo» [12], mas tiveram uma postura bastante humilde em palco, procurando constantemente ligar-se com o público e não perder a mesma energia em palco, do início ao fim. Música oca!? Então, não menos oca será a música dos U2, uma vez que o percurso harmónico da banda irlandesa não é mais complexo. Não deve ser fácil estar em palco para dar o melhor de nós: deve-se muito respeito a essa entrega intelectual. Note-se que, duma outra forma, quando escrevemos, também nós estamos num palco e, aí, os massacrados podemos ser nós. Ainda que muito doa esse massacre individual, é o empobrecimento cultural colectivo que mais fere o futuro.

2 comentários a “Imagina jornalismo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *