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Consultório da Ria

O trabalho de parto

Por Carlos Lima

Aproximadamente nove meses após a fecundação, decorre o trabalho de parto. O trabalho de parto é o processo pelo qual as contracções uterinas [1] da mãe empurram o feto para o ambiente exterior.

Este processo obedece a dois tipos de comportamentos: os físicos e os hormonais. A parte hormonal da gravidez é, em grande medida, controlada pela progesterona, produzida pelo ovário [2] e pela placenta [3]. Quando o processo de crescimento e de maturação do feto está completo, os níveis de progesterona começam a diminuir e são activadas outras hormonas, como os estrogénios e a oxitocina, que desencadeiam as contracções uterinas, e a relaxina, que provoca a dilatação do colo do útero e da sínfise púbica e dá elasticidade ao ossos coxais. A oxitocina também produz uma sensação de bem-estar na mulher e, em conjunto com as endorfinas, reduz a dor para níveis suportáveis, sem suprimir a capacidade das contracções uterinas.

Fisicamente, a mulher desenvolve uma estrutura óssea diferente da do homem, ao nível da bacia, exactamente para o processo de trabalho de parto. O buraco obturador é um orifício ósseo que tem um diâmetro de aproximadamente nove centímetros e fornece uma passagem para o canal de parto, ao mesmo tempo que oferece uma estrutura suficientemente resistente para apoiar os músculos uterinos e abdominais que permitem as contracções e o trabalho de parto. Durante o período de trabalho de parto, também se desenvolve um processo inflamatório controlado, que vai permitir a elasticidade dos tecidos envolvidos e reduzir a dor.

As contracções uterinas ocorrem em ondas, que se iniciam na parte superior do útero e terminam no colo do útero, promovendo a expulsão do feto.

O trabalho de parto pode ser dividido em três fases: dilatação, expulsão e dequitadura.

A fase da dilatação demora habitualmente entre seis e doze horas e vai desde o início do trabalho de parto e até à dilatação completa. Pode haver ou não ruptura do saco amniótico, ou saco de águas; caso não haja, é realizado pela parteira ou obstetra. Neste período, ocorrem ciclos de contracções regulares, que vão vendo encurtando o período refractário, ou seja, ciclos cada vez mais próximos — dando indicações para a mãe se dirigir para a maternidade quando atingem intervalos de meia hora e chegando a cinco minutos ou menos no período expulsivo.

A fase da expulsão é o período que decorre desde que a dilatação está completa, até ao momento do parto. Pode demorar desde dez minutos a várias horas. Pode ser facilitado pela apresentação, ou forma como o feto se encontra na barriga. A apresentação mais comum é a de cabeça, mas também pode ser pélvica, ou seja, é como que se o feto estivesse «sentado». Na mulher que está grávida pela primeira vez, este período é habitualmente mais demorado.

A fase placentária ou dequitadura é o período que decorre após o período de expulsão do feto, até à saída completa da placenta. Dura entre cinco e trinta minutos. Consiste em contracções uterinas que permitem que os vasos sanguíneos uterinos sejam fechados, impedindo que a mulher perca muito sangue. Após o período de expulsão, o cordão umbilical é clampado e a circulação deixa de se fazer, e isso favorece a expulsão da placenta. Em ambiente natural, a clampagem do cordão é feita pelo contacto com o ar. A estrutura gelatinosa do cordão incha e colapsa os vasos, pondo fim à circulação fetal externa. Na mãe, todo o processo é igual.

Nas semanas seguintes ao parto, denominadas de puerpério, a estrutura física e hormonal da mulher promove o retorno à normalidade, e inicia-se o processo para o acolhimento de uma nova gravidez. Nesta fase, a amamentação ajuda a que o processo decorra mais rapidamente, pois as hormonas como a oxitocina, que estimulam a produção de leite, estimulam também o colapso uterino, reduzindo a hemorragia pós-parto e promovendo a diminuição do tamanho do útero e das estruturas envolventes. Para além disso, também estimulam a mulher a voltar ao peso normal, anterior à gravidez.

Por vezes, mesmo que a fase de dilatação esteja completa, devido ao tamanho da cabeça do feto, à estrutura da bacia da mãe ou por razões técnicas, pode ser necessário ajudar o bebé a nascer, quer através de fórceps ou ventosa, ou da realização de uma abertura pela barriga da mãe para extrair o bebé — ou seja, a realização de cesariana.

O trabalho de parto é uma parte decisiva da gravidez; promover que o nascimento ocorra de forma segura e saudável é importante para a mãe e para o bebé, pelo que o ambiente hospitalar é, sem dúvida, o mais seguro e o que oferece mais garantias de que, se algo não estiver bem, existem os meios adequados para que ocorram os menores danos.

 Saúde!

4 comentários a “O trabalho de parto”

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