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Consultório da Ria

A amamentação

Por Carlos Lima

O leite materno é o melhor alimento de que o bebé pode beneficiar, porque é o mais adequado a cada fase do seu desenvolvimento, dado que contém substâncias que evitam as infecções gastrointestinais e porque transmite da mãe para o filho anticorpos que vão compensar as debilidades do sistema imunitário do bebé e, desta forma, protegê-lo mais eficazmente. Se juntarmos a isto o facto de estar sempre pronto, na temperatura ideal, de ser de baixo custo e de estimular as relações afectivas mãe-filho, temos tudo para não hesitar e promover o processo de amamentação. Para que não reste qualquer dúvida, deixo uma pergunta: qual a diferença entre o leite artificial (fórmulas de lata) ao primeiro dia e aos seis meses?

A produção do leite materno depende essencialmente da hormona prolactina, produzida na adeno-hipófise [1]. Durante a gravidez [2], a prolactina já se encontra presente, mas a sua acção é inibida pelo estrogénio e pela progesterona. Com a saída da placenta, a produção destas hormonas diminui e a prolactina estimula as glândulas mamárias [3] a produzir leite. O principal estímulo para que a adeno-hipófise continue a segregar prolactina é sucção mamária pelo bebé: a acção da prolactina prolonga-se por mais de uma hora no final da mamada, o que leva à produção de leite pela glândula mamária para a mamada seguinte. A sucção também estimula a produção de oxitocina pelo hipotálamo. A oxitocina promove a ejecção do leite materno das glândulas mamárias onde é produzido, para os ductos mamários, de onde pode ser sugado pelo bebé.

Após o parto, o leite materno passa por diversas fases: colostro, leite rico em proteínas e açúcares, e leite com mais gordura. O colostro é produzido desde o nascimento até ao quarto dia. A importância do colostro reside no facto de fornecer ao recém-nascido um caldo lubrificante intestinal à base de colesterol, contendo uma riqueza imunitária capaz de proteger a criança nos primeiros três meses de vida, fase em que o seu sistema imunitário é ainda muito incompleto.

O leite rico em açúcares e proteínas, que se inicia apos o colostro e vai sensivelmente até ao mês de idade, fornece ao bebé os nutrientes necessários ao rápido crescimento que se desenvolve nesta fase, dando tempo para que o intestino do bebé adquira competência suficiente para lidar com as gorduras. O aspecto incolor (como as pessoas dizem, parece «aguado») deve-se ao facto das proteínas e dos açúcares terem um aspecto incolor, como tão bem se pode constatar na clara do ovo.

A terceira fase é a do aumento da gordura no leite. Com o aumento das necessidades do bebé, com a importância que as gorduras têm na absorção de muitas vitaminas e doutros nutrientes [4], o aumento progressivo das gorduras no leite materno vai suprir essas necessidades a partir do momento em que o intestino do bebé já tem capacidade para digeri-las. Este leite pode prolongar-se por todo o período de amamentação e pode ir até aos três ou quatro anos, caso a mãe ainda produza leite.

Dito isto, parece-me que não existem dúvidas quanto à qualidade do leite materno; de que a melhor forma de manter a quantidade de leite adequada ao bebé é amamentar; de que a extração com a bomba não estimula tanto a libertação de prolactina, nem é tão eficaz no esvaziamento mamário. Só razões técnicas como a mastite ou a presença de doença infecciosa devem impedir a amamentação. Os seus técnicos de saúde ponderarão sempre os custos e os benefícios da não amamentação. Abdicar, por sua iniciativa, é uma possibilidade que peca por falta de razoabilidade. Basta dizer que a única diferença entre o leite artificial no primeiro dia em que começa a ser administrado e aos seis meses, é a quantidade, tudo o resto é igual…

Saúde!

9 comentários a “A amamentação”

[…] O facto do sistema digestivo não se encontrar completo, a mudança do modo de alimentação do feto para o bebé e a alteração do equilíbrio de líquidos corporais fazem com que este perca aproximadamente 10% do peso corporal da nascença nos primeiros dias de vida, mesmo ingerindo quantidades de leite (de preferência materno) suficientes. Esta perda de peso é fisiológica: acontece com todos os bebés, mas ainda é um dos argumentos que muitas mães utilizam para dizer que o seu leite não tem qualidade e deixarem de amamentar [2]. […]

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